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Espaço de troca de conhecimento da Galera CAPRiCHO. Um grupo de jovens engajados de 13 a 18 anos que chamamos de leitores-colaboradores e que participam ativamente da vida da redação.
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Como é ser uma menina negra dentro de espaços de privilégio

Te conto a minha experiência própria e também o relato de outras mulheres negras que sabem como é estar em um lugar onde você não é reconhecida

Por Giovanna Feliponi 7 fev 2026, 17h00

Olá, leitores do Blog da GALERA. Como vocês estão? Hoje eu vim falar sobre como é ser uma menina e uma mulher negra dentro de espaços de privilégio — e como isso afeta nossas vidas e percepções, principalmente em ambientes escolares e no mercado de trabalho, que costumam ser espaços mais privilegiados.

Desde sempre, nós somos colocadas em posições inferiores às mulheres brancas, como se fôssemos menos importantes. Eu, por exemplo, sempre estudei em escola pública. No meu nono ano, ganhei uma bolsa de 100% para estudar em uma escola particular no meu ensino médio, vinda de uma realidade completamente diferente da minha.

Dentro desse espaço, conheci pessoas que vieram do mesmo lugar que eu, mas também gente de contextos totalmente distintos — e aqui não falo apenas de geografia, mas de lugares de pertencimento. Ali, muitas vezes me senti deslocada. Não apenas por não ver mais meninas como eu, mas por perceber que as pessoas vindas desses lugares de privilégio não tinham a mínima noção de como é a vida fora dali.

Percebi como eu era enxergada e, mais ainda, como essas pessoas viam a periferia no geral. Para uma menina ou mulher negra, esses espaços podem ser ainda mais amedrontadores: além de vir de outra realidade, você já carrega o peso de ser constantemente colocada abaixo — porque, além de mulher, você é negra.

Ao longo dos anos frequentando esses ambientes, vivi experiências que me mostraram como é estar em um lugar onde você não é reconhecida e, muitas vezes, nem ouvida. Sofri racismo em um espaço que deveria ser acolhedor. Uma vez, uma menina, com quem eu não tinha intimidade, fez uma “piada” comparando meu tom de pele ao de um macaco. Foi extremamente desconfortável, porque além de ser ofendida e me sentir inferior, me senti impotente por saber que dificilmente haveria justiça sobre o que aconteceu.

Ser uma menina negra em um espaço de privilégio é um ato de resistência. É força para suportar como as pessoas te olham, te julgam e, muitas vezes, te silenciam.

Agora, quero compartilhar também relatos de outras meninas e mulheres negras, de diferentes idades, que frequentam — ou frequentaram — esses espaços.

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Heloísa Soares Santana, 16 anos

Meu nome é Helo, e falar sobre estar inserida em lugares de privilégio sempre foi uma realidade na minha vida. Muitas vezes, me vi sendo a única menina negra em determinados espaços. Quando eu tinha 13 anos, em uma escola onde havia mais pessoas negras, vivi situações que me marcaram profundamente. Um colega negro disse que meu cabelo estava “duro” porque naquele dia eu não tinha passado creme. No dia seguinte, um menino branco me perguntou se eu não tinha água em casa para arrumar o cabelo. Meus pais foram até a direção, mas a resposta foi: “racismo não existe, temos até professores negros”. Até hoje não sei se conseguiria reagir a comentários tão cruéis, porque eles me deixaram sem palavras, como se esvaziassem qualquer possibilidade de resposta. Essas experiências me fizeram perceber como o racismo se disfarça e é muitas vezes ignorado pelas instituições. E, apesar da dor, acredito que compartilhar nossas histórias é uma forma de resistência. Contar nossas vivências abre caminhos para que outras meninas e mulheres negras possam ocupar e transformar esses espaços.

Noemi Pires, 29 anos

Olá, eu sou a Noemi, tenho 29 anos, sou uma mulher preta. Hoje, cursando Administração e empreendendo, me sinto realizada e grata por ter chegado até aqui. Sei que a minha presença nesses espaços não é apenas minha: é a representação de muitas mulheres pretas que, assim como eu, sonham em ocupar lugares de destaque e reconhecimento. Estar nesses ambientes é um desafio diário, mas também uma vitória. Quero que a minha trajetória mostre que o nosso lugar é alto, que podemos sonhar grande e alcançar cada meta. Espero inspirar outras mulheres pretas a acreditarem na sua força, no seu valor e no poder que temos de transformar realidades.

Lavínia Azenã, 15 anos

Ao longo da minha infância, eu, como uma menina parda, que teve a oportunidade de estudar em escolas particulares e logo, majoritariamente brancas, pude sentir, realmente na pele, essas dificuldades. Sempre me senti diferente de todos lá, e ser minoria em uma sala de aula, em tempos em que tudo o que você mais almeja é apenas ser igual aos outros, afetou diretamente a minha autoestima, personalidade e confiança. Um dos episódios mais marcantes de racismo sofridos por mim foi quando, sem eu notar, colaram um papel nas minhas costas escrito “nigga”, uma palavra inglesa de conotação racista. Envergonhada e triste, optei por pedir providências da coordenação da escola sobre a situação. Providências estas que, mesmo após anos, nunca chegaram. Naquele dia, notei que mesmo sendo “mais uma deles”, nunca serei tratada como tal, ou seja, com os mesmo privilégios de tratamento, justiça e etc.

Ana Carolina Neves, 17 anos

Meu nome é Ana Carolina, tenho 17 anos, sou uma mulher negra e periférica. Tenho uma irmã negra que atualmente cursa o ensino superior, sendo, até o momento, a única pessoa da família nessa condição. Nenhum outro familiar concluiu a faculdade ou o ensino médio. Sou a única da minha família que estuda em uma escola particular, o que representa um grande orgulho para mim, para minha mãe e para meu pai. Estar nesse ambiente me proporcionou um verdadeiro choque de realidade em relação às desigualdades sociais, especialmente quanto às diferenças existentes entre brancos e negros. No entanto, essa experiência me inspira ainda mais a lutar para vencer na vida, transformar minha realidade, ajudar minha família e me tornar a segunda pessoa a conquistar um diploma universitário. Sou profundamente grata aos meus pais, especialmente à minha mãe, que sempre me apoiou e tornou possível minha presença nesta escola que ficava na zona sul de São Paulo.

Isabella Faustino, 21 anos

Ser uma mulher negra nos espaços de luxo é, antes de tudo, ser constantemente vigilante. Ainda mais quando há poucas pessoas que se parecem com você. É um caminho sem volta: quando começamos a reparar quantas pessoas negras em determinados espaços, logo percebemos quais posições elas ocupam e, principalmente, quais ainda não ocupam. Sou profundamente grata às mulheres que vieram antes e pavimentaram o caminho que hoje posso trilhar. Na moda, na comunicação, no mercado de luxo, elas são minha inspiração e resistência. Acredito que continuar entrando e permanecendo nesses lugares e ser um canal para que outras meninas negras também cheguem até aqui faz parte de um propósito muito maior na minha vida. Não é fácil. Muitas vezes me sinto vulnerável e frágil. Mas quando vejo meninas como a Gi — e tantas outras — se inspirando em mim, isso me dá forças para continuar. Me lembra que nunca estamos sozinhas. Sempre existe um refúgio. Em nós mesmas e umas nas outras.

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Cassiane Porto, 17 anos

Dentre as diversas experiências que já vivi sendo uma menina negra, uma delas eu jamais vou me esquecer.  Quando eu tinha mais ou menos uns 8 anos de idade, fui convidada para uma festa num lugar muito chique e bem distante da minha realidade. Logo ao chegar, fiquei deslumbrada com tanto luxo, ao passo que os meus olhos brilhavam  naquele lugar, que até então nunca tinha tido acessado. Na verdade, a comemoração era das primas de uma coleguinha, e predominava meninas brancas. No ambiente dessa festa, havia parentes e amigos dessas meninas  e percebi que as únicas pessoas negras como eu, era praticamente os componentes da minha família. Eu achava tão esquisito, apesar de não me sentir desconfortável, porque fui muito bem recebida e incluida naquele evento. Porém, muitas vezes me sentia deslocada, afinal aquele não era o meu ambiente habitual, pois, no meu cotidiano, eu sempre via e convivia todos os dias pessoas da minha cor e que pareciam comigo. Percebi que naquele lugar, mesmo com tanta gente, eu era e me sentia diferente, pois não tinha outra menina negra, assim como eu.

Adriana Nascimento, 44 anos

Fui protagonista de um comercial de TV no qual minha história de vida foi contada. Uma mulher preta, homoafetiva e periférica ocupando esse espaço passou a ser inspiração para muitas pessoas. Eu estava presente em outdoors espalhados pela cidade, pelo país e em propagandas na televisão. A campanha mostrou minha trajetória real, marcada por luta, resistência e pela busca por espaço e reconhecimento. Fui uma das primeiras pessoas pretas a protagonizar uma propaganda de faculdade e o mais importante é que não interpretei um papel — contei a minha própria história. Nos espaços marcados pelo privilégio branco, passei a ser vista como uma ameaça. Como mulher preta, sempre deixei claro que estou em busca dos meus objetivos e de alcançar meu lugar. Sou assistente social de formação e, quando iniciei minha atuação, enfrentei preconceito. Muitos usuários da rede socioassistencial se recusavam a ser atendidos por mim e ouvi frases como: “Não vou passar em atendimento com essa macaca.” Essas falas revelam o quanto o racismo está enraizado e atravessa as relações. Resistir e ocupar espaços será sempre uma luta diária. Eu, Adriana Nascimento, mulher preta, periférica e homoafetiva, afirmo com orgulho: serei presente nos mesmos espaços até ser reconhecida como doutora em Políticas Sociais. Meu sonho é impulsionar mulheres e homens pretos a construírem suas histórias e a ocupar todos os espaços possíveis.

Como a gente pode ver, ser uma mulher e uma menina preta dentro de espaços de privilégio — principalmente quando se vem de uma realidade completamente diferente — é uma experiência muito dolorosa. É uma dor que vem de dentro e que poucas pessoas conseguem entender.

Quando temos a oportunidade de ocupar espaços, de dar voz e falar aquilo que vem do coração, principalmente sobre assuntos como esse, também damos visibilidade a uma pauta que a sociedade tenta ao máximo colocar fora de foco.

Além de tudo, ser uma menina e uma mulher preta é ser invisibilizada, é ter a sua parte sensível retirada, é ser forçada a enfrentar o mundo da forma mais crua possível. Estar nesses espaços significa, principalmente, ser apagada.

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