Pertencimento tem preço? O que perdemos para sermos aceitos
Todo mundo quer se sentir parte de algo. Mas, às vezes, a busca por pertencimento faz a gente esconder partes importantes de quem é.
V
ocê já se pegou pensando em mudar sua personalidade, roupas ou opiniões para se sentir parte de um grupo? Esse é um dilema que atravessa gerações, mas talvez nunca tenha sido tão forte quanto nos dias atuais, em que tudo é compartilhado em um clique e dois segundos.
A moda, que deveria ser uma forma de expressão, se torna uma de pressão: qualquer coisa diferente é julgada, e cada vez mais pessoas acabam deixando aquilo que são de lado para se encaixarem e, muitas vezes, essa ação vem quase como um movimento involuntário. A psicologia diz que o efeito manada mostra como os grupos são influentes no comportamento individual, e que é natural se sentir compelido a seguir aquilo que é feito a nossa volta.
Com a ascenção das redes sociais, nosso meio deixa de ser apenas o ciclo social, como familiares e amigos, e passa a ter uma influencia externa muito maior. Quanto mais voltarmos na história, veremos como a exposição à “perfeição” se tornou cada vez mais frequente. Nos anos 1960, rádio e filmes não eram acessíveis para a maioria, já nos anos 2000, nem todo mundo conseguia acessar revistas, novelas e início internet que estava surgindo.
Nos dias de hoje, temos todas essas fontes na palma da mão. Cada vez mais, aquilo que acessamos reflete na personalidade, desde a forma como falamos e nos comportamos até como mostramos isso na aparência e estilo.
Acredito que na adolescência seja mais fácil fazer esse tipo de transição de estilo, testar coisas diferentes e descobrir o que gosta. Manter-se fiel a si mesmo com tantas as responsabilidades da vida adulta pode ser um desafio muito maior. As pessoas esperam que você faça tudo conforme o esperado de acordo com a sua idade. E esperam muito na vida social e financeira, mas pouco em mudanças como uma cor de cabelo)
A influencer Emily di Paula, de 18 anos, ficou conhecida por se expressar de forma autentica. Conversei com ela sobre o seu processo com o estilo e como ela faz para se manter fiel a sua própria personalidade, mesmo agora na vida adulta.
BLOG DA GALERA: Qual foi sua trajetória com o estilo? Alguma vez tentou se moldar para ser incluída?
Emily: Para mim, o estilo é uma das melhores formas de se expressar, e como a adolescência é uma fase em que nós ainda estamos nos descobrindo, é comum que a gente transicione entre muitos visuais, seja por experimentação ou por validação externa, comigo não foi diferente…
Eu transicionei entre muitas eras até encontrar quem eu realmente sou, e é claro que no meio disso eu também lidei com pressão social e tentei me moldar ao que esperavam de mim.
Embora eu me vista de uma forma bem “padrão” aos olhos da internet, o cenário é outro quando se trata de vida real, qualquer coisa minimamente diferente é vista como “esquisita”, o que poda muito a nossa criatividade…
BLOG DA GALERA: O que te mantém fiel a sua personalidade mesmo quando o mundo a sua volta parece ditar outras regras?
Emily: Uma ideia que eu tenho em mente e repasso para as minhas seguidoras com frequência é de que o julgamento é inevitável. Mesmo que você se prive de tudo aquilo que você gosta e tente seguir o molde do momento, ainda vão achar algo para comentar de você.
A gente não pode levar a nossa vida com base em um julgamento passageiro de alguém. Seja lá quem for, essa pessoa vai fazer um comentário de dez segundos e dar sequência a própria vida, enquanto você vai deixar de viver a sua autenticidade por conta disso. A conta não fecha. Não compensa, e uma vez que a gente entende isso tudo fica mais leve.
BLOG DA GALERA: Alguma vez você já lidou com o medo de ficar de fora (com FOMO)? Houve alguma situação onde outras pessoas fizeram você se sentir assim?
Com certeza, é muito comum que na adolescência a gente busque pertencimento e validação da maioria. Eu já tentei muitas vezes, mas sabia que não era genuíno. Essas tentativas de mascarar o meu estilo me colocaram em grupos sociais que riam e julgavam os outros pelos motivos mais idiotas possíveis, levavam a vida de uma forma superficial e eu tinha consciência de que eu não queria essas pessoas por perto. Acabou que me vestir da forma que eu quero serviu como um ótimo escudo para me proteger desse tipo de gente.
BLOG DA GALERA: Na sua opinião, por que tantos jovens lidam com esses sentimentos e se você já passou por isso, como lidou?
Emily: Eu acredito que com a onda do minimalismo, o “aceitável” entre os adolescentes está cada vez mais rígido, qualquer mínima estampa ou acessório já é visto como “esquisito”.
O bullying sempre existiu, nos anos 2000 os emos também sofriam preconceito, mas a moda era muito mais flexível, inúmeros modelos de roupas e cortes de cabelo eram opção, hoje em dia qualquer coisa que fuja de um body LISO, calça jeans LISA e tênis e visto como exótico.
Eu tenho consciência de que não me visto de uma forma tão radical assim, mas entendo quando meninas me dizem que gostariam de se vestir como eu e não tem coragem, porque esse é o cenário que a nossa geração Z e a Alpha estão vivendo.
BLOG DA GALERA: Que conselho você daria para quem sente que deve se encaixar a todo custo?
Emily: O meu conselho com base na minha vivência é que vocês parem de tentar se encaixar em ambientes onde vocês não pertencem. Essa sensação de imunidade aos julgamentos é uma percepção falsa, no fim do dia vocês só se privaram daquilo que gostam a troco de nada.
Eu garanto que no momento em que vocês se encontrarem naquilo que representa vocês, naturalmente pessoas semelhantes vão se aproximar, ou então, pessoas que mesmo sendo diferentes não carregam esse tipo de pensamento fechado quanto as aparências, se cerque de gente que queira ver vocês felizes da forma que vocês se sentirem genuinamente bem.
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