Normalização da magreza extrema vira ‘trend’ perigosa entre jovens

Especialistas ouvidas pela CH garantem que, em especial na adolescência, a influência para emagrecer a qualquer custo incentiva transtornos alimentares

Por Mavi Faria Atualizado em 1 dez 2025, 10h11 - Publicado em 30 nov 2025, 17h00
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pós alguns anos com campanhas de body positive e diversidade de tamanho dominando as redes e as campanhas publicitárias, é inegável que a onda da magreza extrema voltou com tudo. Mascarada de wellness, de vida fitness e de uma estética clean girl, ela conseguiu silenciar e inviabilizar falas à favor de todos os corpos para colocar o padrão muito magro em foque, intensificadas pela popularização de canetas emagrecedoras.

A campanha discreta em nome da saúde, contudo, parece não estar funcionando mais. Nas redes, o discurso que começa a predominar agora é o do assombro. O exemplo mais recente dessa mudança aconteceu nesta semana, após a atriz e influenciadora Giovanna Chaves compartilhar nos stories do seu Instagram que iria começar a usar uma caneta emagrecedora, sob prescrição médica, para perder 3,5 quilos. Ou seja, para sair do seu atual peso, 53 quilos, e alcançar os 49,5 quilos.

A reposta no Instagram e no X (ex-Twitter), principalmente, foi massiva: usuários se revoltaram com o culto extremo da magreza, expondo como conteúdos desse tipo os adoecem e se preocupando não só com a saúde mental da atriz, mas com a de inúmeras jovens que a acompanham nas redes.

No mesmo dia, a atriz compartilhou um longo desabafo no Instagram — que já foi apagado —, garantindo que a decisão de usar a caneta é dela, “acompanhada por profissionais que cuidam de mim de verdade, não por comentários da internet”. Ela ainda desabafou que “ninguém nunca está satisfeito”, já que, “se eu engordo um pouco, sou chamada de ‘gorda’. Se eu emagreço, sou chamada de ‘doente’. Agora, se eu faço qualquer coisa por mim, falam que é distorção de imagem”.

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A crítica feita por Chaves no texto é real e pode ser um dos incentivadores para sua intensa dedicação a ficar mais magra e ter o corpo mais definido — vale lembrar que em 2020 a atriz já havia feito Lipo LAD, procedimento de definição do abdômen. Nesta outra matéria, por exemplo, explicamos como a crítica e o controle ao corpo feminino faz parte de um mecanismo da sociedade patriarcal de controlar a mulher, além de que mostramos como especialistas alertam que comentários sobre o corpo de uma pessoa nunca a ajudam, pelo contrário, podem piorar a situação e engatilhar inseguranças e obsessões.

Por outro lado, mesmo ela sendo mais uma vítima dos padrões estéticos extremos, não dá para ignorar o fato de que ela, assim como outras influenciadores, possuem uma grande base de seguidores, muitos deles jovens mulheres, que são influenciadas por conteúdos incentivando a magreza. Se no X, a galera já demonstrou tensão, tristeza e comparação com o conteúdo da atriz, quais outras repercussões este tipo de publicação pode ter?

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Quais as consequências para jovens meninas que acompanham conteúdos como o da atriz? 

É importante lembrar que quando falamos de adolescentes ou de jovens adultas, o cérebro ainda está em formação,  especialmente nas áreas ligadas à identidade, comparação social e regulação emocional. Já mostramos nesta outra matéria como uma pesquisa científica determinou que um indivíduo só pode ser considerado adulto a partir dos 25 anos, quando há o desenvolvimento completo da mente.

O perigo está justamente nos anos anteriores a esta idade, em que a pessoa — especialmente meninas — é mais vulnerável e influenciável a discursos visuais e simbólicos, como os que circulam sobre o corpo, aparência e sucesso. É o que explica a psicóloga especialista em jovens adultas e na Geração Z, Mayra Azevedo. Em entrevista à CAPRICHO, ela é categórica em afirmar que conteúdos como o compartilhado por Giovanna Chaves comunicam uma mensagem sutil e perigosa: “a de que nunca é o bastante”.

Essas narrativas reforçam a ideia de que o corpo feminino é um projeto em constante correção”, afirma, apontando como nesse período de construção da autoimagem, conteúdos como este podem gerar “comparação, culpa, distorção corporal e uma busca obsessiva por controle, além de alimentarem transtornos alimentares, ansiedade e esvaziamento do senso de identidade”.

Assistir uma jovem já magra usando canetas emagrecedoras para perder poucos quilos, segundo a especialista, promove um processo de “internalização de um ideal inatingível”, ou seja, a sensação de que o seu corpo é um erro que precisa de correção, já sendo magro ou não.

A nutricionista Marina Cardoso também lembra que a adolescência, por si só, é um período de muita comparação social e que esse tipo de conteúdo pode, além de normalizar a perda de peso rápida, influenciar uma jovem a tentar adquirir o mesmo resultado da atriz em casa, sem medir as consequências. “Isso abre espaço para dietas extremas, uso inadequado de medicamentos, comportamentos compensatórios e uma relação difícil com a própria imagem”, que, com o tempo, pode desenvolver distorção de imagem, queda da autoestima, ansiedade, depressão e transtornos alimentares.

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Transtornos alimentares são condições de saúde mental caracterizadas por perturbações graves e persistentes no comportamento alimentar, resultando em comprometimento da saúde mental, física e vida social da pessoa, como define a psicóloga. Entre os tipos de transtornos, como anorexia, bulimia e compulsão alimentar, alteram a forma que um indivíduo se relaciona e enxerga a comida, o próprio corpo e o peso.

Quando o desejo de emagrecer se transforma em doença?

Querer mudar o corpo é normal, já lidar com esse processo e com o emagrecimento, especificamente, como a única forma de existir, como explica a psicóloga Azevedo, identificam que o corpo da pessoa já virou um campo de batalha consigo mesmo.

“Pra muitas jovens, o corpo se torna o palco onde se mede competência, autocontrole e até moralidade e isso é devastador pra saúde mental, porque cria um tipo de vigilância invisível: você pode até dizer que ‘aceita o corpo’, mas sente culpa se não o ‘melhora'”, explica.

Nessa luta para alcançar a perda de peso ou o ideal que a pessoa esteja buscando, é comum que, nos sinais de alerta, a jovem esteja cultivando comportamentos autodestrutivos para chegar no corpo que almeja. Na experiência de clínica de Cardoso, a nutricionista revela ter observado que os sinais de risco para um possível transtorno alimentar costumam envolver:

  • Afastamento social, principalmente em situações que envolvem comida;
  • Mudanças bruscas no comportamento alimentar, com restrições, regras severas e compulsão;
  • Perda de peso rápida e significativa;
  • Uso de laxantes, vômitos induzidos e exercícios exaustivos para perder mais peso;
  • Tonturas, desmaios e cansaço físico sem explicação.
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Contudo, ela lembra que “esses sinais não fecham diagnóstico, mas indicam que a relação com a alimentação está ficando rígida e merece atenção. Por isso, a orientação é buscar avaliação médica imediata, já que podem representar não uma ‘fase’, mas um risco real à saúde”.

Quais medidas tomar contra conteúdos de incentivo à magreza extrema?

Se já entendemos que as redes sociais, aliadas ao período da adolescência, possuam grande poder de influenciar jovens meninas a buscarem um corpo inalcançável de forma imediata, a se compararem, se frustrarem e se sentirem inadequadas, a resposta é tirar o meio digital do alcance delas? Não exatamente. 

Hoje, a vida virtual se tornou quase que tão importante e presente na vida dos jovens quanto a real, então não é possível ignorar todo esse ambiente, muito menos seu potencial para o bem e para o mal. Até porque, transtornos alimentar e comportamentos autodestrutivos com a própria imagem já existiam antes do convívio intenso com as redes. A grande questão, para a psicóloga, é perceber que a responsabilidade cultural e ética é de quem produz e propaga esse tipo de conteúdo.

“Combater a propaganda da magreza extrema exige muito mais do que campanhas de autoestima, exige política pública, ética midiática e mudança cultural”, afirma. “A magreza continua sendo exaltada porque ainda existe um sistema que lucra com a insatisfação feminina: o da estética, do consumo e até das redes sociais, que premiam o corpo dentro do padrão com visibilidade e validação”.

Dentro ou fora das redes, a responsabilidade é de todas as mulheres, já que, para Azevedo, “meninas precisam urgentemente de exemplos de mulheres que não estão o tempo todo se odiando”. Em um mundo que “ensina mulheres a se desconectarem de si mesmas”, ela defende que o método mais eficaz e silencioso de prevenção e de cuidados dessas meninas é ver adultas se relacionando de forma saudável com o corpo e com os próprios limites.

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Essa representatividade, aliada à educação midiática com cada jovem para que entendam o que é manipulação de imagem e como a vida das redes não representa a realidade completa, e à responsabilização das plataformas pelos conteúdos que amplificam, é o que Azevedo defende como uma “possibilidade de contornar esse ciclo”.

Já para se blindar de publicações reforçando a magreza extrema — e ajudar uma jovem a fazer o mesmo, a dica da nutricionista é construir um repertório virtual mais saudável, “evitando perfis que reforçam magreza extrema e priorizando conteúdos que ampliem a percepção de corpo, saúde e bem-estar. Isso não resolve tudo, mas reduz bastante o impacto”.

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