Trend mostra que o ‘não’ da mulher é visto como piada, não como resposta

A trend 'treinando caso ela diga não' está sendo investigada pela Federal por incitar violência contra a mulher

Por Juliana Morales 10 mar 2026, 16h01 •
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iante da escalada de violência contra as mulheres e recorde de feminicídios, a trend “treinando caso ela diga não” só reforça a gravidade desse problema estrutural na nossa sociedade. Os conteúdos que simulam agressões a mulheres têm circulado no TikTok nas últimas semanas e, agora, estão sendo investigados pela Polícia Federal.

Nos vídeos, homens simulam pedidos de namoro ou casamento e, depois, encenam agressões, como socos e golpes, como parte de um treino para caso a parceira o rejeite e diga “não”.

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A influenciadora Hana Khalil apontou, em vídeo publicado no Instagram, como a trend reflete a normalização da violência contra mulher e a importância da criminalização da misoginia. “Isso [a trend] simboliza muito bem o que é misoginia e violência contra a mulher, principalmente online. É uma piada, um dia comum”, diz. Ela fala que é assim, com a popularização desse tipo de conteúdo, que cresce o movimento red pill na internet e se fomenta esse espaço de ódio.

A deslegitimação ‘não’ feminino

Os vídeos, que tentam fazer humor (errôneo) com a rejeição feminina, ilustram como o “não” das mulheres é desrespeitado ou até visto como um desafio no contexto mísógino que vivemos. Por acreditar que mulheres são inferiores e objetificar os corpos femininos, muitas vezes, quando uma mulher diz “não”, ele não é aceito como uma resposta definitiva.

Além de não ser levada a sério, a resposta negativa de uma mulher, em muitos casos, é convertida em intimação, violência (como simula a trend que viralizou) ou assédio.

Reforçamos aqui na CAPRICHO em outro texto recente que um dos princípios mais conhecidos sobre consentimento é simples: depois do “não”, qualquer coisa que aconteça é violência. Ou seja, se em algum momento uma pessoa diz que não quer continuar, tudo que acontece depois disso deixa de ser consensual.

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O que é o movimento red pill, citado por Hana?

O movimento red pill defende a errônea ideia de que o feminismo é o contrário do machismo, ou seja, prega a superioridade das mulheres.

O movimento, que acredita que o sistema favorece as mulheres, bebe da fonte Matrix, sucesso do gênero sci-fi de 1999. No filme, o personagem Neo (Keanu Reeves) precisa escolher entre uma pílula azul e outra vermelha. No longa, a pílula azul significa continuar vivendo na ilusão e na ignorância enquanto a vermelha liberta a pessoa do mundo imaginário, dando-lhe uma dose de consciência.

Na visão dos “redpillados”, as mulheres são infiéis, sem caráter e interesseiras e, consequentemente, devem ser tratadas como tal. Logo, não são feitas para namorar ou casar, sendo vistas como manipuladoras.

TikTok removeu vídeos associados à trend ‘treinando caso ela diga não’ e a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar os vídeos por incitar práticas de violência contra a mulher.

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