Ebony questiona os padrões da indústria musical ao vencer prêmio
Citando referências, colegas de estrada e novas vozes da cena do rap, a artista de Queimados transformou sua vitória em um verdadeiro manifesto.
E
bony usou sua vitória no WME Awards na categoria “Revelação do Ano” para questionar o quanto mulheres pretas do rap precisam batalhar para conquistar espaço e serem reconhecidas. Além de exaltar seu próprio legado, a rapper reconheceu cantoras como Afreekassia e NandaTsunami, que na opinião dela são as verdadeiras revelações do ano.
Durante o discurso, a artista criticou a indústria musical pela falta de investimento em outros nomes da cena do rap e na visibilidade de mulheres que vieram antes dela — como Sharylaine, Negra Li, Dina Di, Karol Conká, Cris SNJ, Kmila CDD e Stephanie — além de destacar a ausência de apoio às verdadeiras revelações do gênero, a MCs fora do eixo Rio–São Paulo e às artistas da comunidade trans.
“Admito que eu evitei dar visibilidade para essa indicação, pois desde o primeiro momento senti que não era muito justa. Eu faço música há oito anos e hoje estou aqui com milhões de seguidores, três álbuns, 300 milhões de streams e há anos tenho diversas músicas no charts. Então isso me trouxe um questionamento. Quanto uma mulher negra do rap precisa conquistar para ser revelação?”, inicia a rapper de Queimados, cidade do Rio de Janeiro.
Em maio deste ano, Ebony lançou o disco KM2 com canções como Extraordinário, KIA e Vale do Silício, que bombaram no TikTok e fizeram a nossa diva pop chegar ao mainstream mais uma vez. Sim, mais uma vez.
Nos últimos anos, a rapper dominou rodas de conversa com as canções Pensamentos Intrusivos, aquela em que ela canta que quer garoto feio para ser seu namorado, e Espero que Entendam, uma diss track direcionada para o público masculino que enaltece os homem da cena, mas não apoia as artistas femininas.
“Será que essa régua é igual para artistas de outros gêneros com agências, empresários e assessores influentes? Eu não acho que os números sejam a regra da influência, mas a indústria é traiçoeira com mulheres negras. A mesma indústria que concorda que números não medem talento, não nos reconhecem nas grandes mídias porque não temos o suficiente”, reflete a voz de Roubando Livros.
Nos álbuns Terapia e Visão Periférica, Ebony abre espaço em suas músicas para discutir a sexualidade de mulheres pretas e suas vivências de prazer. Já em KM2, a artista aprofunda essas reflexões, incorporando questões políticas e a forma como se enxerga no mundo — temas que também apareceram em seu discurso.
“A mesma indústria que nos quer hipersexuais e com poucas roupas impede a nossa sexualidade nas letras de concorrenter às premiações. Hoje, a indústria finalmente tá escutando e dando atenção às mulheres excelentes que estão determinando o cenário da nova geração do rap feminino. Mas independente de se a indústria tem ou não interesse, independente de se a indústria considera a gente ou não em alta, a gente sempre teve aqui apoiando e incentivando umas as outras.“, diz Ebony antes de citar inúmeras mulheres que fazem parte da cena do rap atualmente.
“Eu peço que a indústria apoie, divulgue e invista em nomes que vieram antes de mim como Sharylaine, Negra Li, Dina Di, Karol Conká, Cris SNJ, Kmila CDD e Stephanie. Peço que a indústria apoie as verdadeiras revelações como Afreekassia, Ciça, Tória. Peço que a indústria apoie MCs fora da região Rio-São Paulo como Nic Dias e Áurea Semiseria. Eu peço para que a indústria apoie MCs trans como a Bixarte, Monna Brutal, Zaila entre tantas outras. E por isso eu dedico esse prêmio a verdadeira revelação do rap de 2025, NandaTsunami.“
Sobre o WNE
O WME Awards é o primeiro prêmio que se dedica a reconhecer os feitos de mulheres na música. Além Ebony, cantoras como Ajuliacosta, Luedji Luna, Liniker e Jadsa foram premiadas em categorias como “Música Alternativa”, “Cantora do Ano”, “Compositora do Ano” e “Produtora do Ano”, respectivamente.
A premiação também reconheceu outras cantoras, DJs, produtoras musicais, bem como comunicadoras que produzem conteúdo voltado para o mundo musical.
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