‘Ask Her More’: Ainda fazem perguntas além dos looks nos red carpets?

As perguntas voltaram a se direcionar para a moda ou, na verdade, passaram a focar nela novamente porque o que as atrizes usam também posiciona discurso?

Por Nivia Passos 15 mar 2026, 11h00 • Atualizado em 17 mar 2026, 09h12
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ão é de hoje que o público tem curiosidade de acompanhar os tapetes vermelhos de premiações, especialmente o Oscar, por reunir muitos nomes de destaque e ter uma transmissão de maior alcance. Ao longo dos anos, no entanto, um detalhe chamou atenção em todos eles: o fato dos atores serem questionados sobre carreira e processo criativo enquanto as mulheres sempre eram submetidas a perguntas que se resumiam ao look que estavam usando em vez do foco em seus trabalhos.

Nos anos 90, época em que o red carpet ficou ainda mais visado e a prática de perguntas “o que você está vestindo?” ganhou força, alguns grupos feministas já apontavam a problemática, mas a discussão não avançava. Até que tudo mudou em 2014 com o surgimento da campanha Ask Her More (“Pergunte mais para ela”, em tradução livre), que basicamente seguia a ideia de incentivar perguntas mais profundas para atrizes, indo além dos vestidos. A criação foi da organização feminista The Representation Project, fundada pela atriz e produtora Jennifer Siebel Newsom, que hoje também é primeira-dama da Califórnia. 

Foi no Oscar de 2015, com o apoio de estrelas como Reese Witherspoon, que o movimento se tornou viral. Além de postar sobre o assunto nas redes sociais, ela enfatizou que a campanha enfatizava que as atrizes eram muito mais que seus vestidos. A partir daí, com a adesão de outras artistas, o assunto virou notícia, entrou para o trending topics do Twitter e os jornalistas que cobriam o evento se viram pressionados a desenvolver perguntas que fossem além da moda. E com “além”, vale ressaltar que o Ask Her More nunca foi um ataque à indústria fashion ou um desdém com entrevistas que também focassem em estilo. O problema era falar apenas disso, e sempre com mulheres, claro, enquanto os homens tinham espaço para comunicar seus trabalhos.

Reese Witherspoon no Emmy Awards 2024
Reese Witherspoon no Emmy Awards 2024 Frazer Harrison/Getty Images
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Entre 2017 e 2019, outros debates também ganharam espaço no tapete vermelho, com denúncias graves sobre casos de machismo – como o Me Too (“Eu também”), que denunciava casos de assédio na indústria cinematográfica, e o Time’s Up (“O tempo acabou”), que focava em combater tanto os assédios sexuais quanto a desigualdade de gênero e o abuso de poder no ambiente de trabalho. Com o foco neles, o Ask Her More deixou de ser o centro das críticas, mas seguiu considerado como um norte para as entrevistas de eventos.

A dúvida que fica, apesar disso, é se no cenário atual, com trends de look do dia cada vez mais fortes, vídeos de Arrume-Se Comigo e a revisitação de algumas pautas feministas antigas, perguntar sobre as escolhas de moda das atrizes ainda é algo visto com maus olhos. Ao observar algumas premiações, dá até para dizer que as perguntas sobre as escolhas visuais voltaram com tudo, e ninguém parece mais enxergar essa atitude como um problema. Isso significa que voltamos à estaca zero do que gerou tantos debates profundos ou será que, na verdade, é um retrato de um novo momento da moda?

Não dá para negar, é claro, que o cenário digital influencia diretamente neste novo olhar. Veículos de imprensa, até mesmo os que focavam só em textos, precisaram se reinventar com o avanço de plataformas como o TikTok. Sendo assim, em eventos grandiosos, o conteúdo passa, principalmente, pela parte visual/estética – e, nesses casos, o foco no look das atrizes se torna necessário para gravações de vídeos com potencial viral. Mas, além dessa estratégia digital, a moda também passou a ganhar um novo status e aparece, muitas vezes, como discurso político.

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Atores e atrizes recorrem a acessórios para confirmar um posicionamento político ou defender uma causa, como fizeram em eventos recentes em protesto contra a ação de Israel na Palestina e contra a política imperalista de Trump, o atual presidente dos Estados Unidos. Muitos também usam o espaço para dar visibilidade a artistas que defendem uma moda consciente ou para reforçar suas raízes e lançar luz sobre novos nomes – como fez a atriz Alice Carvalho, do elenco de O Agente Secreto, no Globo de Ouro 2026. Em vez de usar as grifes internacionais que predominam no red carpet, a atriz escolheu usar um look da marca paraense Normando. Em casos como este, a pergunta “o que você está vestindo?” não viria junto de um conteúdo que vai além do superficial?

Para a stylist Manu Carvalho – que participou da equipe de pesquisa, prova de roupa e busca de acessórios ao lado de uma das clientes do estilista Jay Boggo, responsável por vestir alguns brasileiros da indústria do cinema que estarão no Oscar deste ano -, uma escolha de look, por si só, já comunica e também é cultura de comportamento: “Moda, aqui, é segunda pele, embalagem; é a pessoa e, por isso, é intrínseco a tudo”, analisa.

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Ela também pondera que, atualmente, o interesse não tem viés de gênero e tem se estendido aos atores, especialmente pelo fato da moda masculina ter ganhado mais espaço: “É só reparar nas modelagens, cores e acessórios, como os clássicos relógios (a joia do homem) e os broches. É quase uma novidade quando a gente olha a linha de evolução dos looks masculinos”.

Wagner Moura no BAFTA 2026
Wagner Moura no BAFTA 2026 Foto: James McCauley/Variety/Getty Images

Como profissional e consumidora, Manu também aponta que o interesse na estética dos astros e estrelas vem de uma demanda do próprio público que não pode ser ignorada: “A indústria da moda tem apelo e é pauta; a audiência quer saber sobre moda e beleza. O que vale é trazer o tema com legitimidade e equilibrar os assuntos de interesse nos eventos. Que tal falar do trabalho antes e, depois, dos looks?”, propõe.

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Entre flashes, vídeos e todo o interesse (justo) no glamour deste tipo de evento, o importante é não esquecer do que já foi aprendido e aproveitar este novo cenário da moda como arte, informação e posicionamento para que as barreiras do passado, que dividiam os dois mundos, não voltem a existir.

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