Elas fazem acontecer: Sonhar é motor para meninas e mulheres da periferia
Gaby Pereira, Luiza Arruda e MC Martina falam sobre como é transformar desejo em ação e ocupar espaços que antes pareciam distantes para meninas negras.
uando você é uma menina da periferia, percebe muito cedo que as coisas do seu bairro são bem diferentes daquilo que aparece no mundinho da internet. Para chegar àquele cenário em que as folhas fazem sombra bonita na calçada e tudo parece muito calmo, quase organizado demais, lá se vão uma ou duas horas de ônibus ou de trem. No caminho, você observa vitrines, restaurantes, profissões que nunca viu de perto, a loja de tênis onde finalmente encontra aquele par que só conhecia pelas fotos. Esses desejos começam a se formar dentro de você não só como vontade de ter, mas como vontade de ser, de estar, de viver de outro jeito. E apesar de perceber que esse mundo ainda é privilégio de poucas, há algo de potente quando meninas e mulheres que vieram de onde viemos decidem ladrilhar seus próprios caminhos com pedrinhas brilhantes e abrir espaço para que mais de nós possam ocupar novas realidades.
A partir de políticas que nos puxam para a universidade e para outros espaços antes impensáveis, aqueles cenários que pareciam distantes começam a fazer parte, de alguma forma, da nossa rotina — nem que seja pelos poucos minutos do trajeto. A gente já consegue parcelar o tênis que antes só via na vitrine da loja ou até arriscar experimentar uma comida nova que antes só era possível acessar no feed do Instagram. Alguns sonhos se cumprem, outros surgem pelo caminho. O mais importante é quando entendemos que nada disso foi construído sozinho. A gente sabe que na periferia ninguém realiza nada isoladamente. Atrás de nós existem mães, avós, tias, amigas e vizinhas que sustentam a travessia, que seguram as pontas, que fazem a comida quando chegamos tarde e apertam nossa mão quando cogitamos desistir. É essa rede silenciosa de cuidado que transforma sonhos em possibilidade real e faz com que cada conquista carregue muitas mãos por trás.
Atrás de nós existem mães, avós, tias, amigas e vizinhas que sustentam a travessia, que seguram as pontas, que fazem a comida quando chegamos tarde e apertam nossa mão quando cogitamos desistir.
Mas se as oportunidades não são iguais para todas, o acesso ao imaginável também não é. Crescer em territórios marcados pela ausência de políticas públicas, pela violência e pela desigualdade econômica molda nossas expectativas. Muitas vezes, a régua do possível é ajustada para baixo desde cedo. Nesse cenário, sonhar exige a energia que poderia estar sendo usada apenas para sobreviver — mas que a gente decide espremer para investir na construção de novas realidades possíveis.
No meio desse caminho, não é só a rede de mulheres do nosso entorno que nos fortalece. A arte produzida por mulheres negras da periferia ocupa um papel extremamente importante. Normalmente, no fone de ouvido, enquanto estamos em pé no trem, segurando nossas mochilas na frente do nosso corpo, ouvimos a voz de Nanda Tsunami, que canta “Eu tenho o que é necessário pra romper todos esses ciclos” e “Eu sou a porta aberta que ninguém pode fechar”. Ou a de Ebony, que escreve “Prefeito, ilumina minha rua pra que eu possa ver a bênção que eu me tornei”. Artistas negras que vêm de lugares muito parecidos com os nossos e que, por sua identificação com as nossas trajetórias, soam quase como um hino para sustentar mais um dia em busca dos nossos sonhos.
A verdade é que sonhar pra nós, mulheres e meninas que vêm dos territórios periféricos, é uma estratégia para continuar indo em busca do que é nosso. MC Martina, atriz e poeta do Complexo do Alemão (RJ), afirma:
“Eu tive a disposição de trabalhar para viver o sonho dos outros… precisava também viver os meus. E ter disposição para investir tempo naquilo em que eu acreditava, nos meus sonhos, nos meus projetos. Mas para fazer isso tem que ter muita estratégia, tem que conversar muito consigo, tem que estar muito alinhado e botar em prática esse desafio de não deixar o terreno afetar o teu interior”.
Nosso bairro não tem rua calma, tranquila, nem estética instagramável. Mas tem outras meninas e mulheres que, de mãos dadas, têm decidido ladrilhar o chão dos nossos caminhos com pedrinhas de brilhantes. Se as oportunidades ainda são privilégio de poucas, sonhar precisa ser um direito de todas – porque é só a partir do que imaginamos que a gente constrói uma realidade diferente.
*Este texto foi escrito por Gaby Pereira, designer; Luiza Arruda, gerente de mídias sociais; e MC Martina, assistente de arte e cultura, trabalham na ONG Movimentos; texto foi editado para melhor compreensão e concisão pela equipe de jornalistas da CAPRICHO.
Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.





