barbara poerner
o que você precisa saber sobre meio-ambiente - e para salvar o mundo. Bárbara Poerner
Bárbara Poerner é jornalista, documentarista e gestora de projetos na área socioambiental. Atua com organizações como Clima de Política, Instituto Caburé e Instituto Febre. É socióloga em formação pela FESPSP.
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barbara poerner Bárbara Poerner é jornalista, documentarista e gestora de projetos na área socioambiental. Atua com organizações como Clima de Política, Instituto Caburé e Instituto Febre. É socióloga em formação pela FESPSP.

A Marcha das Mulheres Negras é a inspiração que você precisa

O que me encanta nesse movimento é justamente a capacidade de mobilização diante do absurdo, sem resignação e conformismo.

Por Barbara Poerner, da CAPRICHO 12 Maio 2026, 08h00
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a sexta-feira, dia 01 de maio, assisti a mesa de abertura da FLIR (Feira do Livro da Rocha, em São Paulo) com os pensadores Alberto Acosta, Kaká Werá e Juliana Gonçalves. Todos falaram sobre o Bem Viver, um conceito-prática-experiência, que vem de povos indígenas, e propõe uma outra forma de organização social, baseada em harmonia com a Natureza e integrando princípios de solidariedade e comunidade em oposição a ideia de crescimento e desenvolvimento econômico infinito (algo bem curioso, já que vivemos em um planeta finito).

Desde que descobri a ideia de Bem Viver por meio dos livros de Acosta, me interesso pelo tema e por encontrar suas manifestações em nosso tempo. Um dos exemplos que mais me inspira foi apresentado por Juliana durante a conversa: a Marcha das Mulheres Negras.

Há alguns meses, no dia 25 de novembro de 2025, mais de 300 mil mulheres negras estavam em marcha em Brasília, pedindo por Reparação e Bem Viver. A capital do Brasil recebeu trabalhadoras, camponesas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, ativistas, pesquisadoras, lideranças comunitárias, artistas, estudantes e muitas outras, de mais de 40 países e de todos os estados. 

Essa não foi a primeira vez do encontro. Em 2015, foram mais de 100 mil marchando, também em Brasília. Ambos os momentos representam um acúmulo de séculos de luta, resistência e criação de outras possibilidades para as populações negras, em especial as mulheres, que são um dos alicerces da sustentação da vida. 

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O tema, Reparação, tem a ver com a história do nosso próprio território. Você sabia que o Brasil foi o país que mais recebeu africanos e africanas escravizadas das Américas? Ao todo, foram mais de quatro milhões de pessoas. 

Só que pessoas negras nunca receberam, de fato, uma indenização (seja ela econômica ou não) pelo período de escravidão. Foram 400 anos do regime que acabou, pelo menos oficialmente, há apenas 137 anos, em 1888, mas sem nenhuma política ou mecanismo para amparar e reparar décadas de violência, apagamento e exclusão. 

Existem muitos dados para mostrar como a população negra ainda é afetada pelos séculos de escravidão e como o racismo ainda é um sistema imperativo em nossas vidas.

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Não à toa, isso se reflete nos dias de hoje. Pessoas negras, entre pretas e pardas, são a maioria da população – 56,7% em 2024, de acordo com o IBGE. Ao mesmo tempo, são também as pessoas negras que recebem salários mais baixos do que as brancas, acessam menos escolas e universidades e convivem com o racismo estrutural. 

O Bem Viver é o elo que conecta tudo isso ao contexto de crise climática (e democrática, e econômica, e social) em que vivemos. Não é possível pensar em combater as mudanças climáticas e suas causas sem incluir as demandas das populações negras e de outras racialidades e etnias. Trata-se de inaugurar novas (ou até antigas) formas de relação com a Natureza e com o mundo.

Existem muitos dados para mostrar como a população negra ainda é afetada pelos séculos de escravidão e como o racismo ainda é um sistema imperativo em nossas vidas. Mas o que me encanta na Marcha é justamente a capacidade de mobilização diante do absurdo, sem resignação e conformismo.

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Não estou romantizando o sofrimento – com certeza mulheres negras não devem sofrer tanto -, mas valorizando a construção coletiva, os saberes e as experiências tão diversas, a inteligência e o exercício de imaginar outros futuros, mesmo com um presente tão difícil. 

Temos um ano com muitos acontecimentos pela frente, de Copa do Mundo a Eleições Federais! Por isso, desejo que experiências como a Marcha das Mulheres Negras nos inspirem e fortaleçam na disputa de presentes, futuros e imaginários de Bem Viver.

Leia o manifesto da Marcha das Mulheres Negras e se envolva. 

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