Indústria da moda acelera a crise climática e precisamos falar sobre isso
Marcas acusadas de trabalho escravo são mais um péssimo exemplo de como funciona o setor do têxtil e vestuário.
ogo após terminar de escrever essa coluna, eu vi uma reportagem recém publicada, da Repórter Brasil, sobre duas marcas de moda (Lore e Anne Fernandes) que foram autuadas por trabalho escravo. “Notas fiscais obtidas pela fiscalização mostraram que os costureiros recebiam entre R$ 20 e R$ 80 pela maior parte das peças encomendadas. Já no site das marcas, uma jaqueta da Anne Fernandes pode custar quase R$ 12 mil, e na Lore é vendida por cerca de R$ 6 mil”, diz um trecho da matéria.
Essa notícia é mais um péssimo exemplo de como funciona o setor do têxtil e vestuário, e o gancho para a conversa que gostaria de ter hoje. Comecei minha trajetória profissional, ou o que alguns chamam de carreira, na moda: estudei no curso técnico e depois na graduação, há dez anos. Um ano antes de entrar na faculdade, eu passei a me interessar mais por assuntos como política e movimentos sociais. Comecei a fazer várias perguntas: por que o mundo é tão desigual? Por que uns tem tanto, e outros tão pouco? O que a moda, o design e os saberes manuais, que tanto gosto, têm a ver com isso?
Dando um spoiler, essas são perguntas com respostas inacabadas – afinal, tudo está em constante transformação e estamos sempre aprendendo. Mas ao longo desses dez anos, pude elaborar, ao lado de muita gente legal e pensante, algumas explicações. Na última década, ampliei meu escopo de atuação para além da moda, mas nunca deixei de trabalhei com organizações, empresas e coletivos que se propõem a atuar nesse contexto.
E de qual contexto estamos falando? Bom, talvez você já tenha ouvido por aí que a moda é uma das indústrias mais poluentes do mundo e uma calça jeans consome milhares de litros de água. É verdade, mas também é superficial demais quando a conversa se encerra por aí.
Não podemos ignorar que que tudo isso faz parte do sistema socioeconômico no qual vivemos, o capitalismo, que funciona com base na exploração das pessoas, do trabalho e da Natureza.
A moda, em números socioambientais, não tem nada de bonita. É até meio terrível. A indústria produz de 2 a 8% das emissões globais de gases de efeito de estufa (Fundação Ellen MacArthur), 170 mil toneladas de resíduos têxteis são anualmente geradas no Brasil, mas apenas 20% são reciclados (Sebrae e Relatório Fios da Moda), o trabalho análogo a escravidão é recorrente no setor, assim como a poluição das águas por quimicos ou microplásticos, e o algodão é normalmente produzido em sistemas de monocultura que degradam o solo e consomem volumes imensos de agrotóxico, além de pressão em territórios tradicionais.
Ufa.
Claro que essa mesma indústria tem milhares de trabalhadoras (a maioria são mulheres, e esse é um dado muito importante), movimenta a economia, faz parte da vida social, dialoga com a política e está atrelada a criação de símbolos e identidades.
Reconhecer isso é importante, mas não anula todos os problemas da indústria do têxtil e vestuário, que precisam ser endereçados e enfrentados. A moda é uma grande contribuinte da crise do clima, seja pela poluição, seja pelas violações de direitos humanos, e isso não pode ser ignorado. Também não podemos ignorar que que tudo isso faz parte do sistema socioeconômico no qual vivemos, o capitalismo, que funciona com base na exploração das pessoas, do trabalho e da Natureza.
Acho que vou seguir sendo chata. Ainda acredito que a moda não precisa desmatar, poluir e escravizar pessoas para existir, e acho que todas concordamos que podemos ser muito melhores do que isso, né?
Infelizmente, o que vemos é que o setor ainda é muito tímido e pouco eficiente em propor soluções, que acabam sendo transformadas em mais um produto sustentável (mais uma calça de algodão orgânico, mais uma blusa de viscose reflorestada…). Isso é até legal e importante, mas é muito pouco perante o abismo de desigualdade que existe.
Destaquei o dado de que as mulheres são a maioria das trabalhadoras (cerca de 60% no Brasil e 75% no mundo) pois elas são a origem e sustentação da moda (e do próprio saber manual têxtil, mas isso é papo para outra coluna). No fim, e no início, os sistemas de produção de moda e têxteis são sobre as mulheres, sobre o trabalho, sobre o social, sobre o simbólico e sobre o político.
Sempre me senti muito chata falando disso. É como se, por ser um campo simbólico e estético, falar das feiuras da moda ferisse toda sua beleza material e imaterial (e fere mesmo). Pois bem… acho que vou seguir sendo chata. Ainda acredito que a moda não precisa desmatar, poluir e escravizar pessoas para existir, e acho que todas concordamos que podemos ser muito melhores do que isso, né?
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