Foto Renata Greco
a gente pode falar sobre o que dói Renata Greco
Vive entre a psicanálise, a gestão pública e as perguntas que ninguém quer fazer. Atua como comunicadora no Instituto Liberta, organização que se dedica a combater a violência sexual de crianças e adolescentes. Aqui na CAPRICHO, sua missão é abrir caminhos para conversas reais e fortalecimento de redes de apoio.
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Foto Renata Greco Vive entre a psicanálise, a gestão pública e as perguntas que ninguém quer fazer. Atua como comunicadora no Instituto Liberta, organização que se dedica a combater a violência sexual de crianças e adolescentes. Aqui na CAPRICHO, sua missão é abrir caminhos para conversas reais e fortalecimento de redes de apoio.

Na adolescência, quem chega primeiro: você ou o algoritmo?

O ódio é construído aos poucos, numa playlist, num fórum, numa conta que o algoritmo recomendou às três da tarde de uma quarta-feira qualquer.

Por Renata Greco 23 abr 2026, 19h45
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Jamie Miller tinha 13 anos.

É com essa frase que Adolescência, minissérie da Netflix, nos coloca diante de algo que preferimos não ver: um menino que matou uma colega após ser consumido pelos conteúdos da “machosfera” — grupos online que ensinam que mulheres são inimigas, que rejeição é humilhação e que a violência é resposta.

Em diversos momentos, Jamie diz ao pai que não fez nada, mesmo depois de ver o vídeo que registra o crime. Mas é no segundo episódio que entramos em contato com o universo da escola. É lá que o inspetor Bascombe e a sargenta Frank “encontram o motivo”. Em um diálogo com Adam, filho do inspetor, abre-se um universo ainda desconhecido entre os adultos: o mundo além do que é visto nas postagens do Instagram e das redes sociais. Descobrimos, aos poucos, que cada emoji tem um significado, como uma comunicação por meio de códigos.

Desde sempre, jovens querem ser populares na escola. Claro! Todos nós queremos ser desejados, isso é humano. Mas as redes sociais fizeram algo novo com esse desejo antigo: transformaram beleza, inteligência e carisma em métricas. Em seguidores, curtidas, visualizações. O que antes era uma sensação, agora é um número na tela. E um número se compara, se disputa.

Nesse cenário surge também o ‘incel’ — abreviação em inglês para celibato involuntário. É um termo que designa meninos que são considerados incapazes de ter relacionamentos sexuais ou até amorosos com meninas e que culpam as próprias por isso. Jamie é vítima dessa ideologia, que, por códigos, sugere que as mulheres são superficiais e só se interessam por homens fisicamente privilegiados, com uma regra, inclusive, de que “80% das mulheres só desejam 20% dos homens”. Dessa forma, essa subcultura online aponta para a necessidade de se enganar as mulheres para ser desejado e, que a violência e/ou manipulação podem ser as soluções para tamanha frustração.

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A série virou fenômeno mundial. Tema de redação na Unicamp, conversa em família. E faz sentido, porque o tema não deixa ninguém confortável. Não há um vilão fácil. Há um adolescente, uma tela e um algoritmo que foi alimentando, aos poucos, um ódio que o jovem nem sabia nomear. E, claro, há o fato concreto: um menino de 13 anos que matou uma colega de escola.

Trabalho no Instituto Liberta, organização dedicada à proteção de crianças e adolescentes contra a violência sexual. E o que a série mostra não é ficção distante — é o que vemos acontecer, de formas diferentes, todos os dias. A misoginia que começa num meme. A pornografia que chega cedo demais, antes da educação sexual na escola, que, muitas vezes, nem chega. O conteúdo ensina meninos a odiar antes que alguém os ensine a sentir.

Nas últimas semanas, fomos bombardeados por casos de feminicídio e misoginia. Em março deste ano, o Senado aprovou, com 67 votos a favor e nenhum contra, o PL 896/2023, que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação, com pena de dois a cinco anos de prisão. É um avanço importante, mas criminalizar é só uma parte, porque o ódio não nasce na hora do crime.

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O ódio é construído aos poucos, numa playlist, num fórum, numa conta que o algoritmo recomendou às três da tarde de uma quarta-feira qualquer. A radicalização raramente tem um estalo. Ela tem uma trajetória, feita por pequenas identificações, de conteúdos que conseguem nomear uma dor que se sente, de comunidades que oferecem pertencimento quando não há nenhum espaço de pertencimento. E aqui está um ponto importante: se o ódio se instala onde falta escuta, é com escuta que precisamos chegar primeiro.

O ódio é construído aos poucos, numa playlist, num fórum, numa conta que o algoritmo recomendou às três da tarde de uma quarta-feira qualquer.

Por isso acredito num trabalho de prevenção, nas escolas e em casa. Precisamos abrir espaços de diálogo em que os sentimentos possam circular sem medo. Como psicanalista, escuto muito na clínica e no Instituto, principalmente de meninos, que eles não podem chorar, que não há espaço para se abrir. Quando falta esse espaço de conversa e prevenção, a machosfera e a pornografia entram sem bater na porta.

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Antes chegava pelas revistas e pelos canais de TV depois da meia-noite. Hoje chega pelo celular, pelo YouTube, pelas redes sociais.

Vale lembrar que a machosfera não é um fenômeno novo, mas ganhou um alcance que nenhuma geração anterior enfrentou. Antes chegava pelas revistas e pelos canais de TV depois da meia-noite. Hoje chega pelo celular, pelo YouTube, pelas redes sociais — muitas vezes antes que qualquer adulto perceba. Faz promessas sedutoras para quem ainda está se formando: diz quem você é, quem é seu inimigo e o que você precisa fazer para ser respeitado. Quem não quer isso?

Adolescência nos deu um presente difícil: a chance de olhar para isso sem desviar o olhar. De perguntar o que estamos oferecendo aos adolescentes antes que a internet responda por nós.

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Jamie tinha 13 anos. E a gente precisa chegar antes.

Dicas do que assistir:

Adolescência (Netflix)

Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera (Netflix)

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Euphoria (HBO)

Para interagir com vocês, com dicas do que vocês querem ler a respeito, esse é meu contato no Instagram: @renatagreco.psi. Bora conversar?

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