Foto Renata Greco
a gente pode falar sobre o que dói Renata Greco
Vive entre a psicanálise, a gestão pública e as perguntas que ninguém quer fazer. Atua como comunicadora no Instituto Liberta, organização que se dedica a combater a violência sexual de crianças e adolescentes. Aqui na CAPRICHO, sua missão é abrir caminhos para conversas reais e fortalecimento de redes de apoio.
a gente pode falar sobre o que dói Renata Greco
Foto Renata Greco Vive entre a psicanálise, a gestão pública e as perguntas que ninguém quer fazer. Atua como comunicadora no Instituto Liberta, organização que se dedica a combater a violência sexual de crianças e adolescentes. Aqui na CAPRICHO, sua missão é abrir caminhos para conversas reais e fortalecimento de redes de apoio.

Quebrando o silêncio: A realidade dos 78%

É nomeando a violência que podemos falar de prevenção. Abordando consentimento e entendendo o que, de fato, é violência sexual.

Por Renata Greco 11 Maio 2026, 08h00
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lguém já tocou em você de um jeito que te deixou desconfortável e você não soube o que fazer? Se você, assim como eu, respondeu que sim, saiba: durante muito tempo, eu também não soube o que fazer com essa sensação. E o que eu aprendi até agora é: não erramos e não estamos sozinhas.

Trago esse tema para a coluna deste mês, porque 18 de maio é o Dia Nacional do Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. E você sabe qual a importância desta data?

No Brasil, 78% das vítimas de estupro têm até 17 anos e 61,3% são menores de 14 anos — o que significa haver seis estupros por hora. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são apenas uma fração do que realmente acontece no país, já que só 11% dos crimes de estupro são denunciados.

E, não sei se você sabe, mas a grande maioria dos estupros de vulneráveis, praticamente 70%, acontece dentro de casa, 85% das vítimas são meninas e 92% dos crimes são praticados por pessoas próximas — como um familiar, vizinho ou amigo da família. Ou seja, não é o estranho da rua. Quase nunca é. E isso explica por que é tão difícil falar sobre o assunto.

Quando o abusador é alguém próximo, o silêncio aparece como a única saída. A vergonha surge no lugar da raiva, da indignação. A dúvida aparece onde deveria estar a certeza de que o que aconteceu foi errado.

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Como psicanalista, lido com essas questões com frequência — de crianças, adolescentes e adultos que carregam por anos um trauma que nunca conseguiram nomear, porque quem sofreu uma violência sexual, muitas vezes, carrega a sensação de que o erro foi seu.

Nomear é o primeiro passo. E é também nomeando a violência que podemos falar de prevenção. Abordando consentimento e entendendo o que é violência sexual.

Consentimento não é um tema de aula ou um simples “sim é sim, não é não”. É algo que diz respeito ao seu corpo, às suas escolhas, ao seu direito de dizer “sim” ou “não” – e isso vale para qualquer pessoa e em qualquer situação, sem necessidade de explicação.

O que isso significa, CAPRICHO?

Segundo o código penal (artigo 217-A), estupro de vulnerável é o crime de praticar qualquer ato libidinoso ou conjunção carnal com pessoa menor de 14 anos, pessoa com deficiência que não tenha como discernir para a prática do ato, ou a pessoa que, por qualquer outra razão, não pode oferecer resistência.

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O livro Precisamos falar de Consentimento: uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não, de Arielle Sagrillo Scarpati, Beatriz Accioly Lins e Silvia Chakian (Amazon R$ 73*), coloca em palavras aquilo que deveria ser ensinado desde cedo: o assunto não precisa envolver conversas difíceis e pode ser discutido com uma linguagem simples.

Essa é uma conversa necessária, até porque, entre o “sim e o não”, existe uma enorme zona em que a violência muitas vezes se esconde. E essa conversa precisa acontecer nas escolas, nos grupos de amigos e em casa. Se quiser começar por algum lugar, o vídeo “Consent: It’s Simple as Tea”, disponível no YouTube, explica o que é consentimento de um jeito leve e descomplicado — e vale assistir com seu grupo de amigas, familiares e parceiros.

No Instituto Liberta, onde trabalho, existe um programa chamado Tá na Hora dedicado a jovens do Ensino Fundamental e Médio. Nele, estudantes mergulham no tema da violência sexual, entendem o cenário, conhecem seus direitos e, ao final, criam campanhas de conscientização para impactar suas próprias comunidades. Não como vítimas, mas como agentes de transformação.

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Porque adolescentes que entendem o que é violência conseguem reconhecê-la. Em si e nos outros.

E é aí que você entra.

E se uma amiga te contasse que algo assim aconteceu com ela, você saberia o que fazer? A resposta mais importante não é ter todas as respostas — é não minimizar, não questionar e não deixá-la sozinha.

Acredite. Acolha. E, juntas, busquem ajuda.

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Se você ou alguém que você conhece precisar denunciar, o Disque 100 é um serviço de utilidade pública disponível 24 horas por dia, gratuito e que pode ser anônimo. Tem informações e funciona como um canal de denúncias de violações de direitos humanos.

E o Instituto Liberta tem materiais e mais informações em liberta.org.br, ou no próprio Instagram @institutoliberta.

O seu corpo é seu. Essa informação deveria ter chegado antes. Mas chegou agora. Se quiser conversar comigo, pode me procurar em @renatagreco.psi. Vamos conversar 🙂

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