3 momentos impactantes do show de Shakira para as mulheres
Cantora transforma apresentação no Rio em discurso sobre misoginia, maternidade solo e superação pessoal.
show da Shakira em Copacabana no último dia 2 acabou virando mais do que um grande evento pop. Num cenário em que discussões sobre misoginia e a sobrecarga enfrentada por mulheres, pedem mais atenção, a cantora usou o palco para transformar a própria trajetória em uma fala coletiva. Ao dar visibilidade a esses temas, ela não só expôs vulnerabilidades recentes como também se conectou com uma realidade que atravessa milhões de brasileiras, que equilibram trabalho, casa, filhos e ainda lidam com cobranças constantes para serem impecáveis em todas essas frentes.
1. Trajetória e vida pessoal
Diante de um público estimado em cerca de 2 milhões de pessoas na orla de Copacabana, a artista relembrou sua relação antiga com o Brasil (nosso país foi a primeiro a acolher a colombiana em sua carreira internacional) e o peso daquela apresentação na própria trajetória. Entre um hit e outro, reforçou a ideia de que o caminho nem sempre é linear e que as quedas fazem parte do processo, destacando como essas experiências podem se transformar em aprendizado.
Parte dessa narrativa passa diretamente pela forma como ela lidou com a própria vida pessoal nos últimos anos. Em 2022, a cantora anunciou o fim do relacionamento com o ex-jogador do Barcelona, Gerard Piqué, após mais de uma década juntos e dois filhos. A separação, marcada por traição, questões fiscais e forte exposição midiática, acabou se tornando um dos episódios mais comentados da sua carreira recente. Em vez de se afastar, Shakira transformou esse período em matéria-prima criativa, refletindo sobre relações desgastadas e dinâmicas tóxicas em suas músicas. Isso aparece na fase mais recente da artista, como no álbum Las Mujeres Ya No Lloran (As Mulheres Não Choram Mais, em tradução livre), em que ela ressignifica dor e frustração em letras sobre autonomia, recomeço e autoestima.
2. Comparações e tom do show
Nas redes sociais, principalmente no Twitter, houve comparações com apresentações anteriores do projeto Todo Mundo no Rio, feitas por Madonna e Lady Gaga. Parte do público esperava um espetáculo mais grandioso, centrado na estética atrevida de uma “diva pop”, com mais efeitos e momentos pensados para viralizar. Ainda assim, o que se viu foi uma escolha diferente: uma apresentação mais atravessada por relatos pessoais, quase como um espaço de troca. Isso ganha outra camada quando se considera o contexto emocional da artista, que teria descoberto pouco antes do show que o pai sofreu um infarto, o que ajuda a entender um tom mais sensível em alguns trechos.
3. Maternidade solo e impacto
A apresentação foi construída como um show de mulher para mulher. Não no sentido de exclusão, mas de direcionamento, com Shakira deslocando o olhar do espetáculo para o cotidiano feminino. Em vez de apenas performar força, ela a explica, contextualiza e compartilha. Em um dos momentos, ao citar que o Brasil tem milhões de mães solo, ela se inclui nesse grupo e reconhece o peso dessa vivência, levando ao centro do palco uma experiência muitas vezes invisibilizada.
Quando uma artista desse tamanho traz esse tipo de reflexão para um público tão amplo, o impacto é simbólico. Não resolve as estruturas que sustentam a misoginia, mas ajuda a evidenciar o quanto essas experiências são comuns e, muitas vezes, ignoradas. O show pode até ter dividido opiniões sobre entrega, mas deixou claro que, naquele momento, a prioridade não era competir com outras apresentações, e sim criar identificação e reforçar um senso de coletivo que vai além da música.
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