Dor não é drama: Como identificar sinais da endometriose na adolescência
Especialista explica por que cólicas intensas não devem ser normalizadas e como a doença pode afetar escola, saúde mental e rotina de meninas jovens.
Por Andréa Martinelli 16 Maio 2026, 17h00 | Atualizado em 23 jun 2026, 15h15
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- Dores intensas na menstruação não são normais e podem indicar endometriose, uma doença crônica que afeta adolescentes.
- A invalidação da dor feminina atrasa o diagnóstico, impactando a vida jovem.
- Confie no seu corpo e busque ajuda.
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or muito tempo, meninas cresceram ouvindo que sentir dor forte durante a menstruação era “normal”. Faltar na escola por causa da cólica, cancelar planos ou passar horas deitada esperando o remédio fazer efeito virou quase um rito silencioso da adolescência. Mas especialistas e pesquisas recentes alertam: sofrer todos os meses não deveria fazer parte da rotina de ninguém.
A endometriose, doença inflamatória crônica que afeta milhões de mulheres no mundo, pode começar ainda na adolescência e costuma ser confundida com uma TPM (Tensão Pré-Menstrual) “mais intensa”. O problema é que, quando os sintomas são minimizados, o diagnóstico demora e a qualidade de vida pode ser profundamente afetada.
“A endometriose pode começar logo nos primeiros anos depois da primeira menstruação, ainda na adolescência”, explica a ginecologista especializada em endometriose Graciela Morgado. “Por isso, ir à ginecologista cedo, sem precisar esperar o início da vida sexual, faz toda a diferença.”
Quando a cólica deixa de ser “normal”?
Segundo a médica, existe uma diferença importante entre um desconforto comum e uma dor que merece investigação. “Dor que te faz faltar aula, cancelar plano com as amigas, deixar o treino de lado ou que nem cede com remédio? Aí já é o seu corpo pedindo socorro”, afirma a especialista.
Além das cólicas intensas, outros sinais podem indicar endometriose: fluxo menstrual muito intenso, dores que pioram ao longo do tempo, barriga inchada, desconforto durante relações sexuais e alterações intestinais no período menstrual. Por isso, fique atenta aos sinais que seu corpo te dá, ok?
A dor feminina ainda é invalidada
Uma das questões mais preocupantes é que muitas pacientes relatam ter ouvido, inclusive em consultas médicas, que estavam exagerando. Para Graciela, isso tem raízes antigas. “Por muito tempo a dor feminina foi tratada como ‘parte do pacote’ de ser mulher.”
Comentários como “é só uma cólica” ou “toda mulher sente isso” acabaram normalizando sintomas que poderiam indicar doenças ginecológicas. E isso tem impacto direto no tempo de diagnóstico da endometriose, que muitas vezes leva anos para acontecer. “A boa notícia é que isso está começando a mudar. A má é que ainda tem muito caminho pela frente”, afirma.
Como a endometriose impacta a vida das adolescentes
Muito além da dor física, a doença pode afetar diferentes áreas da vida de meninas jovens. Escola, amizades, esportes, autoestima e saúde mental entram nessa equação. “Imagina faltar prova porque a cólica não deixa você sair da cama. Não conseguir focar na aula. Largar a dança ou o vôlei porque o corpo não aguenta.”
Conviver constantemente com dor também pode gerar ansiedade, irritação, tristeza e sensação de isolamento, principalmente quando as pessoas ao redor minimizam os sintomas.
Por isso, a médica reforça que o tratamento precisa ir além do consultório ginecológico. Hoje, o acompanhamento costuma envolver também psicólogas, fisioterapeutas pélvicas e nutricionistas.
TikTok pode ajudar… mas também confundir
Nos últimos anos, vídeos sobre sintomas de endometriose viralizaram nas redes sociais e fizeram muitas adolescentes perceberem que algo estava errado. Para Graciela, esse movimento tem um lado muito positivo. “Muita menina descobriu que a dor que sentia não era normal porque viu um vídeo, leu um relato, se identificou com uma história.”
Mas ela faz um alerta importante: diagnóstico não se faz pelo TikTok. “Nem tudo que viraliza tem base científica, e dica de internet não substitui consulta”, explica. Segundo a médica, automedicação e autodiagnóstico podem atrasar o tratamento adequado.
O tratamento evoluiu nos últimos anos
Se antes as opções eram mais limitadas, hoje existem diferentes possibilidades para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida das pacientes.
Entre os avanços, Graciela destaca os DIUs hormonais, exames de imagem mais precisos e abordagens multidisciplinares. “O tratamento hoje é multidisciplinar. Não é só ginecologista: fisioterapeuta pélvica, nutricionista e psicóloga também entram no time pra cuidar de você inteira.”
“Você não precisa aguentar calada”
Para meninas que sentem dores intensas, mas têm medo de estar exagerando, a especialista deixa um recado direto: “Confia em você. Confia no seu corpo. Você não está exagerando — e a sua dor é válida.”
Ela também recomenda observar os sintomas ao longo do ciclo menstrual, registrar dores em aplicativos ou diários e procurar ajuda médica o quanto antes. “Você não precisa ‘aguentar calada’, nunca precisou.”
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