Jovens sáficas celebram a representatividade que Juquinha e Lorena trazem

Três garotas contam como é ver suas vivências, finalmente, sendo retratadas em uma novela no horário nobre na maior emissora do país

Por Juliana Morales 8 fev 2026, 13h00 •

“Uma pessoa hétero, talvez, nunca tenha tido esse tipo de pensamento, mas é muito especial sentir, pela primeira vez, que eu realmente entendo o que um personagem está passando, e que tudo o que acontece com elas pode se encaixar na minha realidade também”, diz Rafaella*, de 21 anos, telespectadora de ‘Três Graças’ e fã do casal Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky).

A jovem, que preferiu não se identificar com o sobrenome, conta à CAPRICHO que acompanhar a história de um casal formado por meninas de uma faixa etária próxima a dela é inédito. “Na época da Lica e da Samantha (Malhação: Viva a Diferença), eu era obcecada por elas, mas eu era muito nova, a ideia de um romance no Ensino Médio era uma fantasia pra mim”, explica.

Além do fato das personagens estarem vivendo a mesma fase da vida que ela e até na mesma cidade em que mora, a identificação não para por aí. Rafaella diz que todo o arco da Lorena se descobrindo, escondendo da família, contando primeiro para o irmão mais novo “ressoou muito nela”. 

“Na minha casa, mesmo eu já tendo me assumido, ainda é um assunto difícil de surgir naturalmente nas conversas. E, nessas últimas semanas, houve momentos do meu pai me chamar de Juquinha (eu também sou ruiva) ou da minha mãe dizer algo como ‘você sabe que seu pai não é o Ferette, né?’, querendo dizer que ele jamais reagiria do mesmo jeito que o pai da Lorena”, conta. 

“Essa novela acabou dando aos meus pais a oportunidade de usar as personagens para dizer que eles me aceitam, de um jeito natural, que eles sabiam que eu ia entender. E eu acredito que isso não esteja acontecendo só na minha casa, é exatamente por isso que representatividade importa.”

Não é só sobre retratar, mas a forma que isso é feito

Tatiany Diniz, que tem 26 anos, enxerga que cresceu em uma época em que ser mulher lésbica era mais “aceitável”, “mas as referências eram escassas, quase nulas”. “Se aparecia alguma personagem sáfica, era em série estrangeira e geralmente a personagem acabava mal, morria ou “voltava” para um homem”. 

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Com Juquinha e Lorena é diferente. “São várias camadas, mas o que mais me toca é o jeito que elas se conheceram e como a relação delas foi se desenvolvendo de forma tão verdadeira e carinhosa ao mesmo tempo que enfrentam temas reais, como a homofobia. Me lembra muito de experiências minhas e de situações que já enfrentei em relacionamentos sáficos”, conta. 

Não é só sobre outras mulheres se sentirem representadas, mas também sobre mostrar para famílias e a sociedade que o amor entre pessoas do mesmo sexo é natural. É uma oportunidade de educar, de normalizar e de mostrar que existe diversidade nas relações afetivas.

Tatiany Diniz

Clarissa Olivia, de 21 anos, diz que, “por ser gen z, teve várias referências no seu processo de reconhecimento como mulher sáfica”, mas também sempre encontrou em produções estrangeiras ou em enredos mais voltados para militância. 

“É importante para sermos e nos sentirmos vistas em uma novela. Não é a mesma coisa que ser retratada em uma produção nichada, dentro de um streaming”, afirma. “É lindo ver e acostumar o olhar da geração mais velha com a presença daquilo que é normal e rotineiro, mas que, até então, era retratado com esteriótipo negativo”, continua. 

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A jovem destaca a forma leve como é construída a relação de “Louquinha”, sem colocar a a homofobia de terceiros, como a do Ferette, como ponto central da relação delas. Afinal, nem tudo é sofrimento e militância a todo tempo. Retratar o olhar apaixonadas de duas mulheres em um simples jantar é o suficiente também. 

“Nós gostamos da calmaria e futilidade de um casal fofinho. Da mesma forma que meninas héteros assistem seus romances bobinhos na juventude, estava na hora de termos esse sentimento também”, defende. “Finalmente estamos vivendo o prazer de ver um romance bobinho, e que podemos até fazer teste na CAPRICHO de quem somos!”

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Clarissa também chama atenção para o fato de que a novela não optou em se prender no estereótipo de um casal composto por uma desfem e uma extremamente feminina.  “Esses casais existem e são relevantes, óbvio, mas ver duas mulheres mais “femininas” se amando, sem a ideia de que para um casal sáfico acontecer precisa de alguém fazendo papel desfeminilizado também é importante”, esclarece. 

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A representatividade de um horário nobre na maior emissora do país mexe conosco em um ponto de alívio, principalmente ao mostrar bobeiras da rotina, como um date tranquilo em um restaurante no fim do expediente.

Clarissa Olivia

Mas nem tudo é perfeito, né?

Mesmo que as jovens acreditem que o autor Agnaldo Silva está acertando em cheio em Três Graças, há alguns pontos que ainda geram incômodo em sáficas que acompanham a novela. “Me incomoda é a ausência da palavra “lésbica” na novela, ainda parece existir um certo receio em torno do termo, quando essa poderia ser uma boa oportunidade de ajudar a tirar o estigma que ele carrega”, observa Rafaella. 

Outro ponto que soa estranho, segundo ela, “é o fato de o assunto casamento ter surgido antes mesmo de a novela assumir de qualquer forma mais clara que elas dormiram juntas. “É um pouco distante da realidade, não?”, questiona. 

Tatiany concorda que, apesar de adorar como a narrativa delas é conduzida, o lado mais íntimo poderia ser mais explorado. “As cenas ainda são um pouquinho adolescentes na minha concepção, encontro em bares e beijos, não passa muito disso. Queria ver mais intensidade, porque casais heteros nunca tiveram esse problema”, opina. 

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Ainda não se sabe qual é o desfecho do casal “Louquinha” e se a intimidade delas será mais trabalhada até o fim da novela, mas uma coisa que Clarissa e todas jovens sáficas têm certeza é que “nós não queremos mais histórias em que o final é vencido pelo preconceito”.

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