O que alguém que sofreu um abuso sexual precisa escutar
Cena de Off Campus mostrou a importância do acolhimento e a falácia da culpabilização da vítima.
a primeira temporada de Off Campus, que tem Hannah Wells (Ella Bright) e Garrett Graham (Belmont Cameli) como casal protagonista, a série traz um tema bastante delicado: abuso sexual. A personagem principal foi vítima de um estupro no ensino médio após ter sua bebida alterada em uma festa, e o episódio traumático ainda impacta muito sua vida, a confiança e a relação com sexo.
Hannah diz que a ajuda da psicóloga foi fundamental após a violência sexual. Ela reforça que não quer que as pessoas sintam pena dela ou a olhem diferente pelo que aconteceu. Mas, apesar dos avanços, fica nítido que o medo, vergonha e o sentimento de culpa ainda se fazem presente mesmo depois de muito tempo – e isso é uma realidade fora da ficção também.
A prevalência da cultura machista na nossa sociedade alimenta o que chamamos de culpabilização da vítima. A mulher, que sofre a violência, é colocada como a culpada, com argumentos infundados como “a roupa que ela estava usando no dia do crime” ou por ter consumido bebida alcóolica.
Uma das cenas mais emocionantes da primeira temporada se dá no final do sétimo episódio, quando Hannah liga para sua mãe após terminar com Garrett. Muito chateada ela relembra o quanto o abuso gerou dor e dificuldade para toda família. E aí que mãe traz uma abordagem muito madura, acolhedora e empática. “O que você fez de errado? Se você está se sentindo culpada, é porque fez algo errado. O que foi”, questiona a mãe para que ela entenda que foi uma vítima de um crime.
“Você foi a uma festa, querida. Você era uma adolescente que tomou uma bebida, só isso. Você não fez nada errado, Hannah. Aquela noite, e tudo que aconteceu depois, não foi sua culpa. Não tem nada que você pudesse ou devesse ter feito”, reforçou.
Como acolher uma vítima de violência sexual
Em reportagem anterior, a CAPRICHO conversou com a Lilian Lacerda, psicóloga coordenadora no Me Too Brasil – organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência sexual no Brasil. A especialista em saúde da mulher explicou e deu conselhos para lidar com essas situações.
Pratique uma escuta acolhedora
A primeira coisa que é importante a ser feita é ouvir genuinamente. E isso significa escutar sem emitir juízo de valor em relação à vítima. Deixe ela contar e evite, por exemplo, fazer questionamentos do tipo: “Como que você permitiu isso?” ou “Por que você não fez ou não falou nada na hora?”.
Agora, se a pessoa ainda não estiver confortável para desabafar, não force a barra. Quando verbalizamos uma violência ocorrida, imagens mentais do dia aparecem, fazendo com que ela “reviva” um dia tão difícil. Só quem passou pode saber quando está pronto para expor.
Frases para mostrar empatia e segurança:
“Eu sinto muito por essa situação que aconteceu com você”
“Isso não deveria ter acontecido com você”
“Lembre-se: você é a vítima”
“Você gostaria de compartilhar o que aconteceu?”
“Como que eu posso te ajudar?”
Não critique as reações da vítima
Outro erro é tentar se colocar na situação, reproduzindo frases como: “Ah, se fosse comigo, a pessoa ia ouvir um monte” ou “Se fosse eu, reagiria de tal maneira”. Somos seres singulares que reagimos de maneiras diferentes.
Além disso, é preciso lembrar que o nosso cérebro tem uma resposta automática em situações de perigo. Portanto, não dá para planejar ou controlar qual vai ser a resposta para uma momento difícil, como sofrer um assédio.
Lilian explica isso, de forma resumida e simples: existe um componente no nosso cérebro que é responsável pela transmissão de informações. E quando acontece uma situação de estresse, que é gerada por um ameaça de perigo, o nosso corpo vai ativar o nosso cérebro. A reposta pode ser: a luta, a fuga ou o congelamento. Então, se a pessoa não consegue ter reações em situações de perigo, isso é normal.
“Julgar a reação ou não reação da vítima é muito injusto, porque ela fez o que o seu cérebro conseguiu reagir naquele momento para se proteger”, ressalta a psicóloga.
E nem as escolhas…
Assédio ou importunação sexual são crimes que constam no Código Penal Brasileiro. Denunciar é muito importante. Mas a escolha de quando fazer isso é da vítima – claro, sempre levando em consideração o estado físico e mental dela. Quando ela se sentir confortável para fazer o boletim de ocorrência e tomar medidas legais, mostre apoio, oferecendo companhia para ir à delegacia, por exemplo.
Mais frases que você deve evitar:
“Vai passar, não precisa chorar”
Para passar por situações difíceis, todo ser humano precisa lidar com emoções. É um tipo de luto mesmo. Então é importante liberar o que está doendo e se abrir mesmo.
“Nossa, eu não acredito que isso aconteceu com você! Que horror”
Mostrar-se muito surpreso ou horrorizado ao ouvir a história da vítima pode soar com desaprovação, causando até certa censura. É preciso ter cautela!
Em casos de importunação sexual e estupro, a vítima deve acionar a Polícia Militar ligando para 190 e também pode fazer a denúncia no Centro de Atendimento à Mulher pelo número 180 ou à Guarda Municipal número 153. O Disque-Denúncia também está aberto a esse tipo de caso (número 181), além o Disque 100 de Direitos Humanos.
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