Por que crescer sendo fã de alguém molda quem a gente se torna
Louise Chennevière, autora de 'Por Britney' fala à CAPRICHO sobre cultura pop, redes sociais e como meninas constroem identidade em meio a julgamentos.
uem nunca projetou todo o próprio futuro em um ídolo na infância talvez não entenda o impacto disso na forma como a gente se vê no mundo. Mas você, leitora (e leitor) de CAPRICHO, provavelmente sabe bem como é. Ser fã é se inspirar, se reconhecer e, ao mesmo tempo, lidar com a sensação de não ser levado tão a sério pelos adultos.
É desse lugar que parte a autora francesa Louise Chennevière no ensaio Por Britney, publicado no Brasil pela Editora Ercolano. No livro, ela revisita sua infância nos anos 2000, quando Britney Spears era um dos maiores nomes da cultura pop, para discutir identidade, pressão estética e o que significa crescer sendo menina em um mundo que vigia e molda o corpo feminino o tempo todo.
“A música foi o motivo pelo qual eu quis ser como ela. Quando eu era mais nova, não havia tantos modelos de mulheres jovens, fortes e talentosas”, contou à CAPRICHO.
Para Louise, os ídolos ocupam um papel fundamental na adolescência — mesmo que isso nem sempre seja valorizado. “Acho que tudo isso tem a ver com força e coragem. É isso que os chamados ídolos nos oferecem quando somos adolescentes, e isso não é levado a sério pela maioria dos adultos”, afirma. “Quando crianças e adolescentes são diminuídas, elas precisam de referências para acreditar em si mesmas.”
E, para ela (e para muitas outras garotas), Britney foi exatamente essa referência. Durante a escrita, revisitar a própria história como fã foi intenso. “Foi uma grande alegria redescobrir essa menina, mas também triste perceber que a deixei de lado por tanto tempo. De repente, eu estava dançando Britney de novo e lembrando do prazer que isso me trazia. Era uma parte linda da minha infância que tinha sido apagada pelos adultos.”
Essa reconexão, inclusive, ganha um significado maior. “Acho que essa menina ficaria orgulhosa de ver que hoje tenho coragem de me levantar por ela e por outras meninas e crianças”, diz.
O lançamento do livro também dialoga com um momento recente na vida de Britney, especialmente após o fim da tutela de 13 anos imposta por seu pai. Para Louise, esse contexto reforça a necessidade de olhar para a artista com mais empatia.
“O que precisamos aprender é empatia. Estamos sempre prontos para julgar, principalmente mulheres. E nunca conseguimos corresponder ao que esperam de nós. As pessoas esquecem que Britney é uma sobrevivente.”
Publicado originalmente na França em 2024, o ensaio mistura memórias pessoais, cultura pop e referências literárias — incluindo a obra da escritora canadense Nelly Arcan — em uma narrativa intensa, construída em fluxo de consciência.
CAPRICHO: Louise, no livro você fala sobre abrir caixas cheias de memórias de 20 anos atrás. Como foi se reconectar com a fangirl da Britney que você era aos 9 anos, e o que aquela menina diria sobre o livro que você escreveu hoje?
Louise Chennevière: Na verdade, foi uma grande alegria redescobrir a pequena fã que existe em mim, embora também tenha sido um pouco triste perceber que a deixei de lado por tanto tempo. Foi algo realmente inesperado, mas de repente eu estava dançando Britney de novo, lembrando de todo o prazer que isso me trazia naquela época, me reconectando com uma parte linda da minha infância que havia sido roubada pelos adultos. Acho que essa menina ficaria muito orgulhosa de ver que, no fim, eu tive coragem de me levantar por ela — e, de forma mais ampla, por todas as meninas e crianças queer.
Para muitas meninas, Britney Spears era (e ainda é) um símbolo. Por que você acha que é tão comum a gente querer “se fundir” à imagem de uma ídola durante a adolescência?
Eu sei que a Britney é vista como um ícone, mas eu realmente gosto de pensar nela antes de tudo como uma artista, uma grande cantora e dançarina e acho que a gente tende a esquecer isso. A música foi o motivo pelo qual eu quis ser como ela, e, quando eu era mais nova, não havia tantos modelos de mulheres jovens, fortes e talentosas. Acho que tudo isso tem a ver com força e coragem. É isso que os chamados ídolos nos oferecem quando somos adolescentes, e isso não é levado a sério pela maioria dos adultos. Mas eu acredito que é algo muito sério, especialmente quando crianças são diminuídas por adultos e pelo sistema escolar. Elas precisam de referências para acreditar em si mesmas.
Seu estilo de escrita é descrito como uma “língua vulcânica”, com poucas pausas, quase como um fluxo de desabafo. Você acha que, como mulheres, somos ensinadas a “polir” demais o que falamos e escrevemos para não parecermos “complicadas” ou “loucas”?
Sim, com certeza. Acho que crescemos com muito medo de não sermos levadas a sério e com a sensação de que precisávamos, como você disse, “polir” nossa linguagem e nossa imagem. Mas, desde o meu primeiro livro, decidi abraçar esse fluxo de consciência, porque me parece a melhor forma de transcrever as contradições e conflitos do pensamento — e também uma forma de resistência à normatividade da linguagem patriarcal.
Você relata um episódio marcante sobre usar batom vermelho na infância e a instrução constante de “fechar as pernas”. Como esses pequenos comandos moldam a forma como as garotas habitam seus próprios corpos antes mesmo de entenderem o que é sexualidade?
Todos esses pequenos comandos e comentários sobre nossos corpos nos fazem crescer com medo de algo que nem entendemos direito. Porque ninguém falava disso abertamente. Ninguém dizia que, se tínhamos que “fechar as pernas”, era porque existiam pessoas problemáticas que poderiam sexualizar uma menina. Então crescemos sentindo que há algo perigoso no nosso corpo, aprendemos a escondê-lo — e, ao fazer isso, perdemos uma grande parte do nosso próprio poder.
Então crescemos sentindo que há algo perigoso no nosso corpo, aprendemos a escondê-lo — e, ao fazer isso, perdemos uma grande parte do nosso próprio poder.
Você afirma que a sociedade tenta impor que o corpo feminino seja “liso, polido e silencioso”. Em tempos de filtros de Instagram e TikTok, como as meninas podem resistir a se tornarem apenas “imagens consumíveis”?
Eu realmente não sei, não tenho uma resposta mágica ou uma solução. Mas acho que, como artistas, temos o dever de oferecer outras representações, outras imagens, para contrapor o mainstream. Temos uma responsabilidade real de produzir novas formas de ver.
O livro conecta Britney Spears e Nelly Arcan pela solidão e pela humilhação pública. O que o público jovem pode aprender sobre empatia ao olhar para o sofrimento de mulheres que parecem “ter tudo”, mas estão sendo silenciadas pela mídia?
O que precisamos aprender é exatamente isso: empatia. Acho que é uma das coisas que mais nos faltam como sociedade, já que estamos sempre prontos para julgar, especialmente as mulheres. No centro da feminilidade, como foi construída, existe uma contradição — ou seja, você nunca consegue corresponder ao que a sociedade espera de você. Eu fico indignada quando as pessoas continuam julgando a Britney pelo que ela mostra hoje nas redes sociais, porque esquecem que ela é uma sobrevivente.
Eu espero que a Britney continue dançando assim para sempre, sem se importar com o que qualquer pessoa no mundo pense!
No livro, você reinterpreta o momento em que Britney raspou a cabeça em 2007 não como um “surto”, mas como um grito para que parassem de tocá-la e desejá-la contra a sua vontade. Como podemos aprender a dizer “não” às expectativas que os outros colocam sobre a nossa aparência?
Raspar o cabelo foi, de fato, um momento real de revolta, mas que foi reinterpretado, como sempre acontece, como um “surto”, para patologizar a rebeldia das mulheres. Aprender a dizer “não” é algo que só conseguimos com o tempo — e também com o apoio de outras pessoas. Ver outras pessoas se recusando a obedecer nos dá confiança para fazer o mesmo. Por isso acho que estamos vivendo um momento histórico muito importante, porque, finalmente, muitas pessoas estão se posicionando e lançando seus “nãos” ao mundo.
Você menciona que mudar o olhar sobre o envelhecimento pode ser uma “bênção” por nos tirar da “lógica de mercado” da juventude. Que conselho você daria para uma menina que hoje sente medo de não ser “bonita o suficiente” ou de perder seu valor com o tempo?
Acho que a questão do envelhecimento é uma das mais importantes, porque esse medo rouba muito do poder das meninas e das mulheres — e mostra o quanto ainda dependemos do olhar masculino. Mas envelhecer, do ponto de vista de uma mulher, é, na verdade, aprender aos poucos a se tornar quem você é. Leva tempo para entender quem você realmente é em uma sociedade construída sobre uma binaridade de gênero tão rígida, então esse tempo precisa ser respeitado. Além disso, sabemos — se formos honestas — que estar “no mercado” nunca fez nenhuma mulher feliz. Pelo contrário.
Como não existe uma história oficial escrita para nós, somos livres para inventar e escolher os modelos e referências que quisermos.
No final da obra, você fala sobre a dança como um espaço de liberdade. Britney hoje posta vídeos dançando sozinha em casa, e você também encontrou na dança uma forma de reconciliação. Como encontrar esse espaço em que o nosso corpo pertence apenas a nós mesmas, e não ao olhar dos outros?
A dança é, na minha opinião, uma das melhores formas de explorar o próprio corpo, e deveríamos poder fazer isso sem nos preocupar com o que os outros pensam. Mais uma vez, isso é algo que vem com o tempo — e eu espero que a Britney continue dançando assim para sempre, sem se importar com o que qualquer pessoa no mundo pense!
Você escreve que Britney era a “irmã que sempre lhe faltou”. Qual a importância de as meninas buscarem referências em outras mulheres (escritoras, artistas, amigas) para construir uma rede de apoio contra a misoginia?
É essencial construir essa rede, porque nada nunca foi feito sozinha. Mas o lado positivo é que, como não existe uma história oficial escrita para nós, somos livres para inventar e escolher os modelos e referências que quisermos. Não precisamos nos prender a uma narrativa pronta — porque ela não existe. E devo admitir: há uma alegria verdadeira em encontrar ou redescobrir uma mulher que você escolhe como irmã.
Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.





