‘Big Disgrace’ é o caos pop que vai te fazer sentir orgulho de ser queer

Álbum de estreia de Haute & Freddy mistura synthpop, teatralidade e catarse para celebrar quem se sente estranho

Por Arthur Ferreira 30 jun 2026, 09h00
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m Big Disgrace, álbum de estreia da dupla Haute & Freddy, tudo parece estar no volume máximo: os sintetizadores, os vocais teatrais, os figurinos e a vontade de fazer do estranhamento um espetáculo. É um disco que soa como uma pista de dança montada dentro de um circo.

Formado por Michelle Buzz e Lance Shipp, o duo aposta em um pop cheio de personalidade para criar um universo próprio. A estética de Haute & Freddy passa por referências à realeza, humor absurdo e uma comunidade de fãs que ganhou até nome: a Royal Court.

O título Big Disgrace, algo como “grande desgraça” em tradução livre, já entrega parte da provocação. A expressão pode ser lida como uma resposta irônica à forma como identidades queer foram historicamente tratadas por conservadores: como escândalo, vergonha ou algo que deveria ficar fora de cena. Haute & Freddy pegam essa ideia e fazem dela matéria-prima para um álbum cheio de orgulho.

Sonoramente, o disco pode lembrar nomes como Chappell Roan e Eurythmics, principalmente pela mistura de batidas oitentistas e vocais bem performáticos. Mas Big Disgrace não tenta soar discreto ou polido demais. A graça está na sensação de que tudo foi pensado para ser excessivo: mais teatral, mais brilhante, mais estranho e mais divertido do que o pop costuma se permitir.

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A abertura com “Symphony For A Queen” apresenta esse universo de cara. A faixa tem clima circense, vocais grandiosos e uma construção que parece anunciar a entrada de uma personagem em cena. Na letra, a imagem de um pássaro preso em uma gaiola, exótico e coberto de renda, sintetiza a vontade de ser visto e reconhecido mesmo quando o mundo tenta limitar o que pode ou não ser mostrado.

Essa lógica aparece de novo em “Scantily Clad”, uma das faixas mais importantes para entender a mitologia da dupla. A música brinca com figuras como a rainha, o papa e a corte reagindo ao choque de alguém “pouco vestido”. A provocação é quase caricatural. O corpo vira escândalo e o constrangimento dos outros vira parte da piada.

É nesse ponto que Big Disgrace se aproxima de uma vivência queer sem precisar explicar tudo de forma didática. O disco entende que, para muita gente, existir com liberdade já foi tratado como exagero. Amar, se vestir, dançar, performar e chamar atenção podem parecer gestos simples, mas também carregam um peso quando se fala de corpos e identidades que sempre foram cobrados a se controlar. Haute & Freddy respondem a isso com muito deboche e refrões para cantar alto.

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Em “Freaks”, todas as garotas bonitas e todos os garotos bonitos são chamados assim. A palavra, que poderia funcionar como ofensa, aqui é identidade. Depois da meia-noite, quando as máscaras sociais caem, todo mundo pode se permitir ser mais estranho. A pista de dança aparece como esse lugar em que a norma perde força e a esquisitice deixa de ser um problema.

A mesma energia aparece em “Shy Girl”. A pergunta “quando você vai dominar o mundo?” é um chamado para quem passou tempo demais tentando parecer menor. A música conversa com quem aprendeu a se esconder para evitar julgamento, mas ainda carrega uma versão mais ousada de si esperando para sair.

Já “Dance The Pain Away” leva o disco para um lado mais melancólico, ainda que sem abandonar a pista. A música fala sobre tentar seguir em meio ao cansaço. O refrão não vende a dança como solução mágica, mas como uma forma de atravessar a dor em movimento.

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O álbum também encontra força ao brincar com papéis de gênero e performance. “Femme Hysteria” ressignifica a ideia histórica de “histeria feminina” enquanto “Fashion Over Function” celebra a estética como escolha política e emocional. Vestir algo exagerado pode ser só uma vontade de se divertir, mas também uma forma de recusar a discrição esperada.

Mesmo quando o álbum desacelera, como em “Sophie” e “Showgirl At Heart”, ele mantém o olhar para personagens deslocados, sonhadores e assombrados por memórias ou desejos que não passaram. A primeira funciona como uma lembrança de um amor ou de uma possibilidade que ficou no passado. A segunda fala sobre manter viva a vontade de brilhar mesmo quando a rotina parece empurrar tudo para o comum.

Encerrando o disco,“I Like My People Weird” é uma declaração final aos deslocados que não têm interesse em se encaixar. É uma última canção que amarra muito bem todo o conceito do projeto.

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Em entrevista à Dork, Michelle Buzz afirmou que Haute & Freddy nasceu como uma espécie de fuga criativa e emocional. A descrição ajuda a entender por que Big Disgrace soa tão comprometido com a fantasia: o duo não usa esse universo como uma forma de criar espaço para outras possibilidades de existência. A dupla também destaca a importância da comunidade queer, da cena underground e da drag como referências para esse mundo.

“Adoramos brincar com questões de gênero de um jeito meio debochado. Existem várias músicas que falam de garotas e garotos bonitos, mas a ideia não é ser algo sério, sabe? Eu subo no palco, rebolo, dou um tapa no bumbum e abro aquele sorriso malicioso e exagerado, do tipo ‘não é para qualquer um’. Ou você curte a vibe, ou, se não gostar, pode ir embora.”

Para o público brasileiro, essa conexão vai ganhar um capítulo ao vivo em outubro. Haute & Freddy estão confirmados no ZIG Festival 2026, com apresentação no Rio de Janeiro em 9 de outubro, na The Home, e em São Paulo em 10 de outubro, na Audio.

No fim, Big Disgrace funciona porque não tenta organizar demais a própria bagunça. O álbum abraça o drama, a estranheza, o humor e a vontade de ser visto sem transformar tudo em discurso pronto. É pop para dançar, rir, performar no espelho e lembrar que aquilo que já foi apontado como vergonhoso também pode nos fazer sentir orgulho.

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