Fãs contam como Heartstopper mudou a forma de se enxergar
Com o fim da história de Nick e Charlie se aproximando, jovens relembram como a série e os quadrinhos viraram refúgio
om um romance LGBTQIA+ adolescente tratado com delicadeza, Heartstopper se tornou um lugar de conforto para muitos fãs. Agora, esse ciclo está chegando ao fim: Heartstopper: Para Sempre, filme que encerra a trajetória de Nick Nelson e Charlie Spring na Netflix, estreia em 17 de julho.
O longa adapta o desfecho da história criada por Alice Oseman e acompanha uma fase decisiva para o casal. Nick se prepara para ir para a universidade, enquanto Charlie passa a lidar com uma nova independência na escola. Entre mudanças, inseguranças e a possibilidade de um relacionamento à distância, a despedida promete mexer com quem acompanhou os dois desde o primeiro “oi”.
Mas, antes mesmo do último capítulo, Heartstopper já tinha deixado marcas fora da ficção. Para Gabriel Belitz, de 22 anos, o primeiro contato com a história aconteceu sem grandes expectativas. Uma amiga recomendou os quadrinhos, mas ele só decidiu mergulhar de vez depois de ver as primeiras imagens de Joe Locke e Kit Connor caracterizados.
“Eu vi o quão fofos eles eram juntos e percebi que precisava consumir essa história antes do lançamento”, conta. O que parecia ser apenas uma narrativa confortável acabou virando algo muito maior. Gabriel leu o primeiro volume em poucos dias, ficou preso no gancho final e logo partiu para o segundo. A identificação, no entanto, foi ficando mais profunda conforme ele conhecia melhor Charlie.
Na época em que entrou no universo de Heartstopper, Gabriel passava por um período difícil de saúde mental e se reconheceu em algumas dores do personagem, especialmente nas questões ligadas à autoestima, alimentação, autolesão e experiências de bullying e homofobia. Ele lembra que, ainda criança, foi alvo de comentários por usar uma lancheira de High School Musical na escola.
Ao perceber que Charlie também carregava marcas parecidas, a relação com a obra mudou. “Eu acabei tendo uma relação muito forte com ele, não só de aproximação, mas de entender algumas das dores”, diz. Para Gabriel, acompanhar o crescimento do personagem trouxe uma nova forma de olhar para si mesmo e também para a possibilidade de viver relações mais cuidadosas.
Quando ele encontra o Nick, eu pensava: eu também posso ter algo bom assim? Eu também posso ter uma relação fofa e saudável com alguém? Mudou a forma como eu olhava para mim mesmo.
Gabriel Belitz
Ramon Baratella, de 23 anos, também enxerga Heartstopper como uma história importante justamente por abraçar algo que, muitas vezes, foi negado a personagens LGBTQIA+ na cultura pop: o direito ao romance fofo, simples e com final feliz. Ele lembra que, quando a série estreou, viu muitas críticas dizendo que a trama era “irreal” ou “fantasiosa demais”.
Para ele, esse ponto é parte da força da obra. “Casais héteros têm mil comédias românticas em que a protagonista fica com o cara de quem gosta. Por que a comunidade LGBT também não pode ter isso?”, questiona. Ramon acredita que histórias como Heartstopper são essenciais para adolescentes que ainda estão tentando se entender e encontrar referências.
Mesmo com o tom delicado, ele destaca que a obra não foge de temas difíceis. A série e os quadrinhos tratam de bullying, saúde mental, transtornos alimentares e dependência emocional sem transformar a dor dos personagens no único centro da narrativa. “Ela pode parecer bobinha, mas também aborda coisas muito importantes”, afirma.
A identificação de Ramon com Charlie veio principalmente pela sensação de exclusão durante a escola. No ensino médio, ele se sentia como uma das poucas pessoas LGBTQIA+ naquele ambiente e não encontrava muito espaço para conversar sobre isso. Quando Heartstopper chegou à sua vida, ele já estava na faculdade e, nesse novo contexto, a série abriu portas para trocas com amigos e pessoas que viviam experiências parecidas.
Com o filme final se aproximando, a despedida de Nick e Charlie carrega um peso diferente para quem encontrou na história mais do que entretenimento. Gabriel, por exemplo, não vê o fim como um encerramento definitivo. Para ele, mesmo que a trajetória dos personagens chegue ao último capítulo, o impacto de Heartstopper deve continuar alcançando novas pessoas.
“Vai perpetuar para muito além disso”, diz. “Vai servir de referência para outras gerações, para que elas tenham um apoio, um refúgio e histórias em que consigam se enxergar.”
Se você precisa conversar ou está passando por um momento difícil, o CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O atendimento também pode ser feito por chat e e-mail pelo site oficial do Centro de Valorização da Vida.
+ Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.





