Filme de Heartstopper te convida a amadurecer e encarar conversas difíceis

Despedida de Nick e Charlie é uma história sobre autonomia e a coragem de continuar escolhendo o amor

Por Arthur Ferreira 17 jul 2026, 19h01
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urante três temporadas, Heartstopper encontrou espaço para acompanhar cada passo do relacionamento de Nick  e Charlie. Por isso, nos primeiros minutos de Heartstopper: Para Sempre, pode surgir a sensação de que alguma coisa está fora do lugar. Depois de tantos episódios, um único filme parece pouco para tudo o que ainda gostaríamos de ver.

A adaptação demora um pouco para recuperar completamente a atmosfera acolhedora que transformou a série em um fenômeno. Quando chega ao terceiro ato, no entanto, o coração de Heartstopper só cresce até a despedida.

A menor participação dos amigos pode incomodar, especialmente porque o grupo sempre foi parte essencial da série. Ao mesmo tempo, seus arcos já haviam chegado a pontos bastante completos no final da terceira temporada. O filme entende que esta é, antes de tudo, a conclusão de Nick e Charlie. Ainda assim, quando Tao, Elle, Isaac, Imogen e os outros aparecem, fica claro que aquelas amizades continuam sendo uma das maiores forças da trama.

https://www.youtube.com/watch?v=locuQ-skySE&t=3s

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Charlie não é mais o garoto da primeira temporada

O amadurecimento de Heartstopper não está apenas no fato de Nick (Kit Connor) e Charlie (Joe Locke) agora transarem e conversarem abertamente sobre sexo. Para quem criticava a série por ser “fofinha demais”, o filme mostra que os personagens cresceram, mas também lembra que demonstrar carinho não é sinônimo de imaturidade.

Em determinado momento, Charlie comenta como alguns de seus gestos românticos podem parecer cringe. Mas o amor é embaraçoso mesmo (já disse Olivia Rodrigo). Ser vulnerável, dizer algo meloso e demonstrar o quanto alguém importa quase sempre envolve o risco de parecer um pouco bobo. Heartstopper nunca teve vergonha disso e, felizmente, não começa a ter em sua despedida.

A maior prova de amadurecimento está no próprio Charlie. O garoto que, no início da série, passava os intervalos escondido em uma sala para fugir do bullying agora se candidata à presidência do grêmio estudantil. Em seu discurso, fala sobre combater a violência dentro da escola e sobre a importância de meninos aprenderem a expressar seus sentimentos, em vez de engolirem tudo até não aguentarem mais.

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Charlie também funda um coletivo LGBTQIA+ e acolhe Alfie, um aluno mais novo que está enfrentando situações parecidas com aquelas que ele viveu. A relação funciona como um espelho da própria importância de Heartstopper para seu público. Assim como Sr. Ajayi (Fisayo Akinade) ofereceu segurança a Charlie quando ele precisava, agora é Charlie quem cria esse espaço para outra pessoa.

Imogen (Rhea Norwood) resume essa transformação ao observar que ele finalmente tem autoconfiança. “Você se conhecer é algo muito poderoso”, diz a personagem. Isso não significa que Charlie deixou de ter inseguranças ou que seus problemas de saúde mental desapareceram. Significa que ele aprendeu a não fugir imediatamente das conversas difíceis.

Nick ainda está aprendendo a fazer o mesmo.

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Dois homens jovens deitados na cama, um abraçando o outro por trás. O homem de trás tem cabelo escuro e está sem camisa, olhando para o lado. O homem da frente tem cabelo castanho claro, veste uma camiseta cinza e está de costas para a câmera. Ambos estão cobertos por um edredom listrado em tons de azul e branco, em um quarto escuro
Kit Connor e Joe Locke em ‘Heartstopper: Para Sempre’ Netflix/Reprodução

Amar alguém não pode ser sua única fonte de felicidade

Enquanto Charlie está mais seguro sobre quem é, Nick passa boa parte do filme ansioso com a ida para faculdade. Quando não consegue escrever sua redação de candidatura, Charlie sugere que ele encontre um emprego ou alguma atividade que não esteja relacionada à escola, à universidade ou ao relacionamento. Nick começa a trabalhar em um canil e encontra ali uma oportunidade de construir algo que seja apenas dele.

O problema central, porém, é que Nick não consegue colocar em palavras o que está acontecendo. Ele evita se abrir com o namorado e trata conversas sobre sentimentos como se fossem apenas “papo de terapia”. Ao mesmo tempo, Charlie acredita que, depois de tudo o que enfrentou, deveria estar pronto para cuidar dos outros sem precisar de tanta ajuda.

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É aí que Heartstopper: Para Sempre apresenta uma de suas ideias mais importantes: ninguém simplesmente termina de se curar. A terapia não é uma fase que acaba assim que a pessoa melhora, e o avanço de Charlie não significa que ele nunca terá uma recaída. Cuidar da saúde mental é um processo contínuo.

A dificuldade de se expressar e o desejo de proteger o parceiro criam uma relação de dependência emocional que nenhum dos dois percebe. Nick afirma que só é feliz quando está com o namorado. Charlie responde que não deveria ser assim. Pouco depois, os dois começam a acreditar que estão prejudicando um ao outro.

A separação dói justamente porque o amor ainda existe. Charlie tem uma recaída em seus problemas alimentares, enquanto Nick também se isola e sofre. Por mais angustiante que seja acompanhar os dois distantes, o tempo separados é necessário para que entendam que um relacionamento saudável não pode existir quando cada pessoa acredita ser responsável por manter a outra inteira.

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Dois jovens em um quarto escuro. Um rapaz de cabelo encaracolado, moletom escuro e calça preta, sentado no chão, usa um notebook. Outro rapaz, de cabelo liso e camisa laranja, sentado na cama, apoia o rosto na mão, com expressão pensativa. O quarto tem paredes azuis, luzes pisca-pisca e pôsteres
Kit Connor e Joe Locke em ‘Heartstopper: Para Sempre’ Netflix/Reprodução

Crescer também significa aceitar as mudanças

Nick e Charlie não são os únicos assustados com o futuro. Tao (William Gao) e Elle (Yasmin Finney) também enfrentam as consequências da distância e percebem que o amor, sozinho, nem sempre é suficiente para impedir que duas vidas sigam caminhos diferentes.

Elle ainda fala sobre o medo de ser uma mulher trans no mundo atual, enquanto Tao precisa encarar a possibilidade de perder a rotina que construiu ao lado dela. Mesmo separados, os dois continuam se importando profundamente um com o outro. É Tao quem ajuda Nick a compreender que o fim de uma relação não apaga o que foi vivido.

As relações podem terminar e alguns podem acabar se afastando, mas o amor que nos conecta nunca vai acabar. Construímos esse amor e eles nos construiu.

Tao Xu em Heartstopper: Para Sempre
Dois homens jovens, um branco e outro asiático, em trajes formais, olham um para o outro com expressões pensativas, em um ambiente festivo com luzes douradas desfocadas ao fundo
Kit Connor e William Gao em ‘Heartstopper: Para Sempre’ Netflix/Reprodução

Outro momento importante é uma conversa de Nick com a mãe, ele relaciona sua incapacidade de demonstrar raiva, tristeza ou frustração ao abandono e masculinidade tóxica do pai. Durante anos, Nick acreditou que precisava manter um sorriso no rosto e nunca sair da linha para impedir que as pessoas também fossem embora.

A cena não resolve magicamente suas inseguranças, mas permite que ele finalmente as reconheça. Sarah (agora interpretada por Anna Maxwell Martin) lembra que muitas pessoas passam a vida inteira sem alcançar esse nível de consciência e garante que, com ou sem Charlie, ele conseguirá ficar bem. Isso não significa que Nick deva desistir daquele amor antes da hora.

Porque como ela bem diz…

O amor também é uma escolha

Nick e Charlie entendem aquilo que muitos casais ainda precisam aprender: estar juntos deve ser uma escolha, não uma necessidade provocada pelo medo, pela culpa ou pela sensação de que um é responsável por manter o outro bem.

O amadurecimento do casal está em abandonar a fantasia de que o amor verdadeiro resolve tudo sozinho. Ele não apaga traumas, não elimina recaídas e não impede que duas pessoas tenham desejos diferentes para o futuro. O que o amor pode fazer é oferecer um espaço seguro para que essas diferenças sejam reconhecidas e discutidas sem que qualquer conflito seja tratado imediatamente como sinal de fracasso.

Isso também explica por que a conclusão não tenta preservar para sempre a dinâmica confortável das primeiras temporadas. Os personagens estão crescendo e algumas relações podem ganhar novos formatos, mas nenhuma delas deixa de ter importância apenas porque a adolescência acabou.

A fala de Tao sobre o amor que as pessoas constroem e que, depois, também ajuda a construí-las resume o legado de Heartstopper. A série nunca foi apenas sobre descobrir por quem você se apaixona, mas sobre encontrar pessoas que tornam possível imaginar uma vida mais acolhedora. O que torna Heartstopper “para sempre” não a promessa de que Nick, Charlie e os amigos permanecerão inseparáveis, mas a certeza de que o amor vivido entre eles continuará fazendo parte de quem cada um se tornou.

Duas pessoas sentadas lado a lado, com as mãos abertas e relaxadas sobre uma superfície rochosa. A mão esquerda tem pele clara e a direita, com sardas, usa um anel dourado no dedo anelar. Desenhos de um coração rosa e raios amarelos flutuam sobre as mãos
Kit Connor e Joe Locke em ‘Heartstopper: Para Sempre’ Netflix/Reprodução

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