Fontana transforma “experiência solitária” em autenticidade no Drag Race
Em entrevista à CH, drag brasileira fala de pressão, xenofobia, ansiedade e identidade na reta final do reality.
poucas horas da grande final de RuPaul’s Drag Race UK vs The World, Fontana está vivendo o tipo de momento que mistura euforia, pressão e um senso histórico difícil de colocar em palavras. “Tudo passa pela cabeça, né? Tudo o que eu passei — não apenas para entrar no programa, mas a história de onde eu saí, as comunidades que eu represento”, conta em entrevista à CAPRICHO.
A sensação de conquista vem acompanhada de um peso real: “Me sinto muito honrada e realizada, mas é muita coisa na cabeça. É a primeira vez na história que a gente tem uma brasileira na final de uma temporada julgada pela RuPaul. Eu tô realizando um sonho que eu nunca imaginei que fosse realizar.”
Nascida em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e morando na Suécia há 11 anos, Fontana — nome artístico de Gabriela Fontana Teixeira — construiu uma trajetória que atravessa fronteiras, idiomas e contextos culturais. Drag queen, cantora, dançarina e maquiadora, ela ganhou projeção internacional ao ficar em segundo lugar no Drag Race Suécia . Mas, como ela mesma deixa claro, a competição nunca foi o único desafio.
A minha experiência não foi tão legal. Muitas vezes eu entrava no estúdio e era a única pessoa que não era sueca. Eu era a única que trazia uma diversidade cultural ali. E isso era muito solitário.
Fontana sobre a temporada sueca
A barreira do idioma também pesava. “Às vezes eu tinha que pedir para as meninas traduzirem em inglês para mim. E, se eu falasse em inglês, a produção pedia para eu falar sueco. Imagina você falar de coisas muito específicas da sua vida num idioma que não é o seu?”, diz. Ainda assim, ela surpreendeu, inclusive a si mesma. “Eu não esperava ir tão longe, não esperava ter ficado em segundo lugar. Toda semana eu sentia que iam me mandar embora.”
Se na Suécia o sentimento era de deslocamento, no palco global do UK vs The World o desafio ganhou novas camadas e também mais visibilidade. “Ambas experiências vêm com uma xenofobia gigantesca”, afirma. “99% do que vem do público é amor, graças a Deus. Mas tem 1% que é ‘deporta ela’, ‘manda ela de volta para o Brasil’. É uma dor real.”
Ao mesmo tempo, foi ali que ela tomou uma decisão importante sobre como queria se apresentar. “Por mais que eu more há 11 anos na Suécia, a minha essência é brasileira. Meu sangue é brasileiro. Eu penso em português. Não tem como eu fingir ser sueca.”
Parte dessa jornada também passa pela relação com RuPaul, uma figura que, segundo Fontana, é ainda mais marcante de perto. “Ela realmente é a maioral. E é uma pessoa muito calorosa”, conta. “Ela olha a gente no olho e parece que a alma sai do corpo. Parece que ela entra dentro de você.”
A artista também desmente rumores sobre distanciamento nos bastidores. “Câmera ligada, câmera desligada, ela era a mesma pessoa. Muito uma presença materna. Isso faz a experiência ficar muito mais mágica.”
Mas nem tudo foi glamour. Um dos memes mais comentados da temporada, “bucket!”, surgiu de algo profundamente pessoal: sua ansiedade. “Eu tenho um diagnóstico de ansiedade crônica e depressão”, revela. “Quando eu tenho essa ansiedade, eu paro de respirar… isso vira uma tosse, que me faz vomitar.”
O que começou como um pedido discreto à produção — “vocês poderiam deixar um balde no cantinho?” — acabou virando o bordão mais icônico da edição. “É algo que eu morria de vergonha e que hoje eu me empodero”, diz. “Eu nem sabia que a RuPaul ia ficar falando isso.”
Por trás das câmeras, o contexto era ainda mais intenso. “Eu estava correndo o risco de ser deportada, passando por um divórcio de 7 anos, sem ter onde morar. Eu entrei para gravar zerada, devendo tudo que eu tô pagando até hoje”, conta. “Mas eu sabia: se eu não levasse looks, não teria como competir.”
Em meio à pressão, Fontana também virou assunto dentro e fora do programa por sua personalidade expansiva. “Eu sou too much”, afirma, sem rodeios. “Eu estava vivendo a minha autenticidade com a câmera ligada ou desligada. Nada foi planejado.”
Ainda que reconheça que isso possa ter amplificado conflitos, ela encara como parte do jogo. “Se colocam dois takes a mais seus e dois a menos de outra pessoa, você acaba aparecendo mais… ou causando mais. Entregamos reality show.”
Fontana está vivendo o #DragRaceUK vs the world 3 como ninguém. Nossa rainha está nos representando muito!!! pic.twitter.com/Bcj6CsfWUR
— draglicious.com.br (@dragliciouz) February 11, 2026
E teve entretenimento mesmo. Um dos momentos mais virais da temporada foi o lipsync ao som de Crazy Frog (sim, isso mesmo que você está lendo), que colocou Fontana frente a frente com sua aliada mais próxima, Serena Morena. “As latinas se juntaram”, lembra. “Ela virou pra mim e falou: ‘levanta a cabeça, porque você é brasileira e não chegou aqui por acaso’.”
“Foi muito difícil mandar a Serena embora, porque ela era meu suporte ali”, diz. “Mas foi um dos momentos mais virais da temporada. Você tem que soltar a palhaça que tem dentro de você.”
WTH just happened? They made me lip sync to crazy frog 🐸😭😂 #DragRaceUK #teamfontana pic.twitter.com/6N266xDqRk
— FONTANA (@itsfontana) February 24, 2026
Outro ponto alto veio de um reconhecimento que ultrapassa o reality. O elogio de Michelle Visage à sua maquiagem foi, para Fontana, um divisor de águas. “Foi um dos momentos mais importantes da minha vida”, afirma. “É a Gabriela e a Fontana antes da fama se encontrando.”
Durante a minha transição, a maquiagem foi uma ferramenta para eu me sentir segura comigo mesma. Antes de ter dinheiro para laser, era a maquiagem que me ajudava.
Fontana
Hoje, fora das câmeras, a realidade segue impondo obstáculos que vão muito além do palco, especialmente na Suécia. A artista ainda aguarda a definição de seu status migratório em meio a um cenário político cada vez mais conservador. “Hoje a gente tem uma presença de extrema direita muito forte no país. Então nós temos agora um processo de deportação em massa acontecendo. As regras e leis de imigração estão muito mais difíceis e rigorosas do que eram. E, por mais que eu já tenha direito à cidadania pelo tempo que moro aqui, esses direitos estão sendo apagados. E isso me preocupa.”
A apreensão não é abstrata: em 2019, Fontana chegou a ser deportada por uma falha burocrática. “Faltava um documento na minha aplicação e, em vez de pedirem para eu completar, eles negaram e me mandaram de volta para o Brasil. Tive que ficar seis meses esperando. É isso que me dá ansiedade agora.”
Voltar definitivamente ao país de origem, no entanto, não é uma alternativa simples. “Sendo uma mulher trans, morar no Brasil para mim não é uma opção”, afirma. “Eu amo o Brasil, tenho muito orgulho de ser brasileira, mas eu sei que é um país que ainda enfrenta muitas dificuldades para pessoas trans.”
Ao revisitar a própria trajetória, Fontana conecta passado e presente em um relato atravessado por marcadores sociais e experiências pessoais profundas. “Isso me dá muita ansiedade, porque eu sempre fui uma pessoa trans. Eu era uma criança trans, uma menina no corpo de um menininho.”
As memórias de infância são marcadas por violência e incompreensão. “Isso me trouxe problemas, bullying e opressão desde muito cedo. Antes mesmo de eu me entender, as pessoas já esfregavam na minha cara. Gritavam ‘viado’, ‘gay’…”, relembra. Hoje, com acompanhamento psicológico, ela revisita esses episódios sob outra perspectiva. “Eu entendo que todos esses sinais eram de uma criança trans.”
O processo de afirmação de identidade, no entanto, não aconteceu de forma imediata. “Quando eu gravei o programa, eu não estava pronta para falar sobre isso”, conta. “Eu me identifiquei como não binária por muitos anos, e isso me deu espaço para me questionar. E quanto mais eu me questionava, mais óbvio ficava.”
A minha transição agora, com 32 anos, está acontecendo para mim, não para o mundo.
Fontana
É com essa bagagem de arte, sobrevivência, identidade e política que Fontana chega à final de RuPaul’s Drag Race UK vs The World. Mais do que disputar uma coroa, ela ocupa um espaço importante dentro da franquia e fora dela: “Mesmo sendo uma pessoa muito solitária, eu não cheguei até aqui sozinha. E estar na final… já é uma vitória.”





