MC Soffia mostra sua versão ainda mais ‘Soffisticada’ em novo álbum

À CAPRICHO, a rapper fala sobre suas referências, negritude e o poder de criar as próprias portas.

Por Arthur Ferreira 1 jul 2026, 09h00
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C Soffia está em uma nova fase e o nome dela entrega tudo: Soffisticada. O álbum mais recente da rapper brinca com o próprio nome da artista, resgata referências dos anos 2000, mergulha em sonoridades dançantes e reafirma uma marca que acompanha sua trajetória desde a infância: usar a música também como ferramenta de conscientização.

Em entrevista à CAPRICHO, a artista de 22 anos falou sobre o conceito do projeto, as participações do disco, a importância da autoestima na construção de sua imagem e o peso de continuar levando mensagens políticas para o público jovem. Mas antes de falar sobre o álbum, Soffia também relembrou sua participação na Parada LGBTQIAP+ de São Paulo deste ano.

“Para a gente ver como a nossa comunidade, quando se une, ganha força. Então, poder fazer parte desse momento especial, desse momento crítico, foi muito gratificante”, contou. A rapper, que é bissexual, também relembrou sua relação antiga com o evento. “Eu já ia para a feira da Parada quando era criança, minha avó já me levava. Ela nunca teve problema com isso, com homofobia e tudo.”

Sempre que eu puder usar a minha voz para coisas boas, para trazer pautas importantes, eu sempre vou usar. Tanto com o feminismo, com o racismo e com a luta LGBTQIAP+

MC Soffia

O que faz MC Soffia se sentir sofisticada?

O título Soffisticada resume bem a atmosfera do novo momento da artista. Quando perguntada sobre o instante em que mais se sente sofisticada, Soffia não pensou duas vezes: é quando está se arrumando para sair.

“Eu acho que eu me transformo. Eu tô em casa, largada, e aí eu vou sair e começo a me arrumar. Parece uma varinha mágica, eu começo a me transformar e viro outra pessoa”, disse. Para ela, a estética também faz parte da narrativa do álbum. “Quando vem um cabelo novo, a gente já vira outra pessoa, outra persona.”

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Esse olhar aparece diretamente na capa do disco. A artista explicou que a ideia era trazer a negritude para o centro da imagem. O ensaio foi feito em uma loja de cabelo no Brás, em São Paulo, com várias cabeças de boneca ao fundo.

“Toda mulher preta troca de cabelo, usa kanekalon, coloca cores, faz trança, ou é trancista”, explicou. “A galera falou que era IA, mas não era IA. Era realmente uma loja com várias cabeças, para mostrar eu sendo várias personalidades.”

Nostalgia dos anos 2000, funk e black music

Uma das marcas de Soffisticada está nas referências musicais. O álbum passa por clássicos do funk brasileiro, como Pow Pow Tey Tey, de MC Dedê, e Eu Adoro, Eu Me Amarro, do Bonde das Maravilhas, além de sucessos internacionais como Yeah!, de Usher, e Beautiful Girls, de Sean Kingston.

Soffia contou que a seleção dessas referências aconteceu de forma intuitiva. “Nem teve um cuidado, foi só sentindo, sabe? Eu falei: ‘Vou botar isso aqui, vou botar isso ali’, porque eu sabia que ia ficar bom.”

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Segundo ela, o disco busca resgatar justamente essa energia dos anos 2000. “Eu sempre gostei muito de músicas dançantes, de funk, de música de fora, músicas internacionais. E, como nesse álbum Soffisticada a gente está resgatando a era dos anos 2000, que era a era da black music, por isso a gente colocou Usher e Soulja Boy.”

As referências também aparecem em forma de trocadilhos e autorreferências, algo que a artista enxerga como parte do próprio rap. Ao falar sobre Shakira, por exemplo, ela relembrou um projeto com a UNICEF que fez a cantora colombiana repostá-la. “Eu falei: ‘Do nada, eu no feed da Shakira, Waka Waka, ê ê’. Aí continuo rimando. Tem que ter esses trocadilhos, né? O rap é bom por isso.”

Se Soffisticada olha para uma nova fase da carreira de MC Soffia, o álbum também conversa com o passado. Em Empoderada 2, a artista retoma uma música lançada em 2020 e atualiza a mensagem a partir de outras referências. Na primeira versão, Soffia lembra que estava em uma fase de transição entre a infância e a adolescência. Agora ela cita nomes como Rosa Parks, Angela Davis e Maria Firmina dos Reis. “Se a galera for estudar a história de cada uma, vai ver como elas foram importantes para a cultura”, afirmou.

A gente não vai só passar música dançante, música popzinha para a gente só dançar. A gente também vai trazer temas importantes dentro da letra, que é esse resgate que eu sempre trouxe.

MC Soffia

Feats por lei da atração

O álbum conta ainda com participações de Major RD, Slipmami e Tasha & Tracie. E, segundo Soffia, todos os feats aconteceram quase como uma manifestação. “Todas as participações foram sorte. Porque eu já tinha feito as músicas sem nem ter falado com eles que eles estariam nelas”, contou.

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Sobre Major RD, ela revelou que já tinha escrito a música pensando nele: “Eu escrevi uma música e falei: ‘Nessa música, o Major RD vai entrar’. Como? Também não sei. Aí joguei para o universo.” Com Slipmami, a história também teve um toque de acaso. Soffia foi de ônibus ao Rio de Janeiro para gravar uma faixa com a artista, mas chegou antes dela ao estúdio. Enquanto esperava, começou a trabalhar em outra música. “Quando ela chegou, falei: ‘Amiga, já tem a música, só entra’.”

Já com Tasha & Tracie, a ideia surgiu durante uma sessão de estúdio. “Ele me mostrou esse beat que era do Usher. Cantei e falei: ‘Será que Tasha & Tracie entram?’. Aí a gente jogou para o universo e deu certo.”

Mulher negra de cabelo crespo, óculos de sol e top branco, inclinada sobre um carrinho de compras rosa com uma peruca, filmando com uma câmera vintage. Ao fundo, prateleiras cheias de cabeças de manequim com perucas variadas
MC Soffia Yago Mesquita/Divulgação

Criando as próprias portas

Uma das faixas que mais resumem o momento de MC Soffia é Palmas Pra Mim. Na música, ela canta: “Vou criar minha própria porta que pra mim cê não abriu. Eu estava aqui o tempo todo e você me viu.”

Para a artista, o trecho fala sobre parar de esperar validação externa. “Eu também já fui esse tipo de pessoa e fui mudando. Esse lugar de querer que as pessoas abrissem portas para a gente”, disse. “A gente tem que sair desse lugar de esperar o outro fazer e criar a nossa própria porta.”

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Soffia também comenta a frase “Eu sou a mais nova e já sou mãe delas”, que virou uma forma de brincar com a relação que tem com públicos de diferentes gerações. “As meninas que cresceram comigo ainda continuam me acompanhando, os meninos também. As crianças que são crianças hoje também continuam ouvindo a minha outra era”, explicou.

E, claro, ainda tem referência pop no meio. Em Palmas Pra Mim, ela cita Veronica Lodge, de Riverdale: “Eu não sigo as regras. Eu faço elas. Se necessário, eu quebro elas.” A rapper contou que não acompanhava tanto a série, mas viu a frase viralizando no TikTok e se identificou.

Em Soffisticada, MC Soffia parece olhar para o passado, para o presente e para o futuro ao mesmo tempo. Entre referências de infância, cultura pop, autoestima, cabelo, negritude, rap e pista de dança, a artista reforça que sua música continua sendo feita para se divertir, mas também para deixar uma mensagem.

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