‘Michael’ aposta no mito e dribla polêmicas em cinebiografia rasa
Filme foca no auge do Rei do Pop e evita controvérsias em narrativa ajustada nos bastidores. Mas será que funcionou?
azer a uma cinebiografia de um grande artista quase sempre vem com um desafio: equilibrar verdade, emoção e o apelo comercial. Em Michael, longa dirigido por Antoine Fuqua, essa equação ganha ainda mais camadas. A CAPRICHO assistiu ao filme em sessão exclusiva para a imprensa antes da estreia, marcada para 23 de abril, e conta os destaques da produção.
Após refilmagens extensas (foram cerca de 22 dias adicionais e um custo estimado de US$ 75 milhões), o longa mudou sua estrutura para contornar questões jurídicas envolvendo acusações feitas contra Michael Jackson nos anos 1990. O corte final, então, opta por um recorte específico: a ascensão do artista até o auge da era Bad (1987–1989). Funciona? Em partes.
A decisão de não cobrir toda a vida do cantor faz sentido dentro das limitações de tempo. Mas o jeito como o filme sinaliza continuidade — quase como se “Michael Jackson vai retornar em Vingadores: Doomsday” — soa mais como gancho de franquia do que como fechamento narrativo. O que é estranho pensando nas possibilidades para sequências aqui: os bastidores dos discos Dangerous, HIStory e Invincible? Ou a construção da Neverland? E como abordar esses momentos da vida do cantor sem tocar nos tópicos cabeludos que evitam retratar?
Na tela, o foco está na construção do ícone: infância no Jackson 5, explosão com Thriller e consolidação como fenômeno global. Só que, ao evitar os momentos mais controversos, a narrativa também simplifica demais o personagem.
O Michael apresentado aqui é constantemente enquadrado como uma figura quase intocável, alguém associado à pureza, à infância e à generosidade, com símbolos e situações que reforçam isso de forma insistente. Não conseguimos nem contar quantas vezes o cantor aparece alisando páginas ilustrativas de um livro do Peter Pan.
Essa escolha dialoga diretamente com os bastidores da produção. Com o envolvimento direto do espólio e de familiares — como Jermaine Jackson, Tito Jackson, Jackie Jackson e Marlon Jackson —, o filme assume um olhar mais controlado sobre a própria história que se propõe a contar. Na prática, isso aparece em cena: nos momentos em que a relação abusiva com Joe Jackson ganha destaque, há uma insistência em enquadrar reações dos irmãos que funcionam quase como uma validação do sofrimento de Michael.
O fato de vários deles também assinarem como produtores executivos reforça a sensação de um relato conduzido de dentro para fora. Esse contexto ganha ainda mais peso quando se considera o histórico de conflitos e declarações dentro da própria família — como as acusações feitas por La Toya Jackson nos anos 1990, posteriormente retratadas, e a ausência de Janet Jackson no projeto.
Narrativamente, o filme encontra sua força na infância. O jovem Michael, vivido por Juliano Krue Valdi, é um dos destaques positivos, trazendo carisma e presença nas cenas iniciais. Já na fase adulta, Jaafar Jackson assume um papel complexo: interpretar alguém cuja imagem é tão marcante que beira o inalcançável. Como não cair no caricato se Michael era quase uma caricatura de si mesmo? Ficamos imaginando mais como o Michael reagiria as situações do filme do que acreditando na atuação de Jaafar.
Quem se destaca com consistência é Colman Domingo. Como Joe Jackson, ele entrega uma atuação intensa, que sustenta boa parte da carga dramática do longa e ajuda a estruturar o principal eixo da história.
Apesar disso, algumas sequências que prometiam mais acabam frustrando. Os bastidores de Thriller, por exemplo, aparecem de forma fragmentada, sem o aprofundamento esperado para um dos momentos mais revolucionários da música pop e da história dos videoclipes.
Outros elementos também surgem de forma pontual. Questões de saúde, como o vitiligo, são pouco exploradas, enquanto materiais que ficaram de fora, incluindo participações como a de Diana Ross (Kat Graham), reforçam a sensação de que há uma versão maior dessa história ainda não exibida.
O terceiro ato, refeito após mudanças no roteiro, concentra outro ponto de instabilidade. O desfecho parece apressado, com uma costura visível entre o que foi mantido e o que precisou ser regravado, o que impacta diretamente o ritmo final.
No fim, Michael é um filme que deve encontrar seu público, especialmente entre fãs que querem reviver momentos marcantes da carreira do artista no cinema. Mas, ao optar por um retrato mais seguro e recortado, a produção entrega uma versão que emociona em alguns pontos, incomoda em outros e, principalmente, deixa claro que ainda há muita história fora de cena.
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