‘Quem Ama Cuida’ acerta no suspense, mas pesa no sofrimento de Adriana

No primeiro mês, novela das nove entrega elenco inspirado e história envolvente, mas ainda precisa dar respiros à protagonista

Por Arthur Ferreira 3 jul 2026, 09h00
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m seu primeiro mês no ar, Quem Ama Cuida mostrou que chegou com vontade de abraçar os clichês de novela sem medo. Tem mocinha injustiçada, família rica em guerra por herança, vilã cruel, romance impossível, assassinato misterioso, prisão, vingança anunciada e aquela pergunta que movimenta qualquer história: afinal, quem matou Arthur Brandão?

A trama da TV Globo aposta em uma fórmula clássica, mas ainda envolvente, muito bem defendida pelo elenco e cheia de boas promessas. Ao mesmo tempo, o excesso de sofrimento concentrado em Adriana, personagem de Letícia Colin, tem criado um risco para a narrativa. Em vez de aumentar a comoção, a sequência de tragédias pode anestesiar parte do público.

Tudo sempre pode piorar para Adriana

A história começou em ritmo intenso. Adriana, fisioterapeuta batalhadora, perdeu a casa e o marido em uma enchente logo no início da novela. Depois da tragédia, ela passa a trabalhar como cuidadora de Arthur, vivido por Antônio Fagundes, um milionário solitário, dono de uma tradicional joalheria e cercado por familiares interessados em sua fortuna.

É dessa relação que deveria nascer um dos grandes motores da trama. Arthur e Adriana criam um laço de confiança que culmina em um casamento civil por pacto, pensado como forma de proteger o patrimônio dele e provocar a própria família. Só que, na mesma noite, o empresário é assassinado durante uma queda de energia, e Adriana, a última pessoa a estar com ele e herdeira direta de seus bens, acaba condenada injustamente pelo crime.

Funciona principalmente porque Letícia Colin sustenta Adriana com uma atuação impecável. A atriz consegue fazer o público permanecer ao lado da personagem mesmo quando o roteiro insiste em colocá-la em uma espiral ininterrupta de dor. Julgamento, prisão, perda, separação, ameaças e humilhações se acumulam em poucos capítulos, preparando o terreno para a vingança que virá na segunda fase.

O problema é que, para uma mocinha vingativa funcionar, não basta que ela sofra muito. É preciso que o público também conheça seus momentos de leveza, seus desejos, sua graça e sua vida comum antes da queda. E esse é um dos pontos mais frágeis do primeiro mês de Quem Ama Cuida. A novela até indica que Adriana viveu respiros importantes, especialmente na relação com Arthur, mas parte disso aparece de forma acelerada em uma passagem de tempo. A amizade entre os dois, que poderia ter sido ainda mais desenvolvida, acaba passando rápido demais para que a morte dele doa com toda a força possível.

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O casal impossível (e também quase sem respiro)

Algo parecido acontece com Pedro, vivido por Chay Suede. O romance com Adriana surge como uma das poucas frestas de alívio em meio a tanta tragédia. A química entre os atores ajuda, mas esse respiro também é retirado rapidamente dela. Ao terminar com Pedro para protegê-lo das ameaças ligadas a Pilar (Isabel Teixeira), Adriana perde mais uma possibilidade de afeto em uma fase em que a personagem já parecia carregar o mundo nas costas.

A novela parece saber exatamente o caminho que quer seguir: fazer o público acumular revolta para, mais tarde, transformar cada passo da vingança de Adriana em catarse. É uma escolha válida, mas, até aqui, o equilíbrio ainda oscila. Quando tudo é desgraça, o sofrimento deixa de surpreender. Em alguns momentos, a sensação não é mais de comoção, e sim de espera pela próxima pancada.

Por isso, pequenos momentos de doçura fizeram tanta diferença. Letícia Colin tem humor, delicadeza e carisma suficientes para mostrar outras camadas da protagonista. A novela ganharia ainda mais se permitisse que Adriana existisse também fora da dor, antes de mergulhar de vez na vingança.

Pilar e Brigitte são impossíveis de ignorar

A maldosa Pilar é uma das grandes engrenagens da novela. Com uma atuação incrível, Isabel Teixeira constrói uma vilã que desperta raiva sem precisar exagerar em todos os momentos. A personagem se move pela ganância, pelo controle e por uma crueldade que atinge não só Adriana, mas também os próprios filhos. Sua relação com Brigitte, vivida por Tatá Werneck, é uma das mais interessantes da trama porque revela como a violência emocional também pode ser herança.

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Brigitte é um dos maiores acertos deste primeiro mês. A escalação de Tatá Werneck fez parte do público se questionar se a novela reduziria a condição da personagem ao humor, mas os autores parecem usar essa expectativa a seu favor. Ela entra em cena com uma veia cômica, fala muito, invade espaços e causa desconforto. Aos poucos, porém, fica claro que o riso não é exatamente alívio, mas um mecanismo de sobrevivência.

Seu comportamento com os homens não parece nascer de um desejo romântico específico, mas de uma necessidade desesperada de ser escolhida. Quando a novela mostra a relação dela com Pilar, esse incômodo ganha contexto. Brigitte cresceu marcada por uma mãe que a tratou como fardo. Isso não justifica seus atos, mas dá densidade à personagem.

O mérito de Tatá está em não transformar Brigitte em caricatura. Ela transita entre o ridículo e o trágico. Em algumas cenas, basta uma mudança no olhar para a personagem deixar de parecer engraçada e revelar algo bem mais sombrio. É um trabalho que confunde o espectador de um jeito interessante. Dá raiva, pena, aflição e, às vezes, tudo ao mesmo tempo.

Estamos de olho no Mau Mau

Outro ponto que merece destaque é a forma como a novela vem tratando a relação entre Mau Mau, interpretado por João Victor Gonçalves, e Otoniel, vivido por Tony Ramos. O vínculo entre avô e neto tem funcionado pela sutileza, principalmente ao abordar conflitos geracionais e homofobia nem sempre escancarados. Em uma novela cheia de grandes viradas, esse tipo de construção mais silenciosa ajuda a dar textura ao texto.

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Mau Mau também movimentou uma conversa importante fora da tela. Mesmo sem a novela confirmar qualquer romance entre ele e Felipe, personagem de Pietro Antonelli, parte do público passou a torcer pelo casal nas redes sociais. A torcida por “Malipe” diz muito sobre o momento da dramaturgia brasileira. O público LGBTQIA+ não quer mais apenas personagens que apareçam de forma lateral ou existam como símbolo de representatividade.

A chegada de Fernando, personagem de Pedro Alves, como novo par romântico de Mau Mau na segunda fase deve movimentar ainda mais essa discussão. Mesmo que Felipe e Mau Mau nunca aconteçam, a repercussão já mostra que existe uma demanda clara por tramas LGBTQIA+ mais centrais e desenvolvidas como aconteceu com Lorena e Juquinha em Três Graças. Quem Ama Cuida pode continuar essa conversa de forma relevante, desde que não trate esse núcleo apenas como complemento.

Segunda fase e justiça pela Adriana

A segunda fase, prevista para começar em 20 de julho, depois da Copa do Mundo, deve marcar a grande transformação da protagonista. Com um salto temporal de seis anos, Adriana sairá da prisão em liberdade condicional e dará início ao plano para derrubar aqueles que destruíram sua vida. Pilar aparece como alvo final, mas a novela ainda tem muitos fios soltos.

A principal crítica, por enquanto, está no ritmo emocional. A novela não parece lenta. Pelo contrário: às vezes, ela é rápida demais nos vínculos e pesada demais nas quedas. Falta permitir que o público respire com Adriana para, depois, sofrer com ela de forma ainda mais intensa. O sofrimento é necessário para a vingança que está sendo construída, mas a empatia nasce também da vida que existe ao redor da tragédia.

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Se encontrar esse equilíbrio, Quem Ama Cuida tem tudo para transformar a dor acumulada deste primeiro mês em uma virada realmente saborosa.

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