Jaqueta chinesa da Adidas vira tendência e gera debate cultural

Popularização da peça, que foi eleita um dos itens mais desejados de 2026, levantou discussões sobre contexto histórico e consumo consciente

Por Sofia Duarte 10 Maio 2026, 11h00
Google Priorizar nos meus resultados Google
E

ntre os principais desejos de moda do momento está uma jaqueta exclusiva que tem feito sucesso no streetwear. Pelo menos, é o que diz o novo relatório da plataforma global Lyst, que mapeia os itens e marcas que estiveram em alta durante o primeiro trimestre de 2026.

A peça que ocupa a terceira posição na pesquisa de produtos desejados nesse período é a jaqueta ‘Tang‘, da Adidas, caracterizada principalmente por um fecho de nó chinês (também conhecido como ‘pankou’ ou ‘botões de sapo’) feito de cordão e por uma gola mandarim estruturada. Ela foi originalmente lançada apenas na China em 2025, durante a semana de moda de Xangai em outubro, depois distribuída para outros territórios asiáticos e, neste ano, chegou a alguns mercados da Europa e dos Estados Unidos.

Seu nome é uma referência ao conjunto ‘Tang’, um traje chinês moderno que deriva da jaqueta curta ‘magua’, usada por cavaleiros da etnia Manchu, que, ao chegar ao poder durante a Dinastia Qing (1644-1912), obrigou também os oficiais da etnia Han a aderir ao traje, entre outros costumes Manchu. Assim, aos poucos, a vestimenta de ‘conquistador’ foi ganhando status no país e virou comum entre a elite, até evoluir para o que hoje conhecemos como jaqueta ‘Tang’.

O nome ‘Tang’, a título de curiosidade, refere-se à Dinastia Tang (618-907), conhecido como o período de maior prosperidade do Império Chinês. Por esse motivo, a expressão se tornou sinônimo de ‘chinês’ para o mundo.

Continua após a publicidade

É importante mencionar que a Adidas tem uma parceria com a marca Samuel Guì Yang, com raízes em Londres e Xangai, fundada pelos designers Samuel Yang e Erik Litzén. Essa colaboração acontece desde 2024 e deu origem a jaquetas justas e estruturadas que também têm o tradicional abotoamento chinês, mas não é esse o modelo que aparece no relatório da Lyst. Embora tenha sido influenciada pelo resultado da collab com a Samuel Guì Yang, a peça viral de modelagem oversized foi concebida pelo time de designers de Xangai da empresa alemã e é comercializada dentro da linha Adidas Originals; portanto, tem valor mais acessível.

A controvérsia por trás da tendência

A jaqueta foi lançada tendo o Ano Novo Chinês em vista, que neste ano começou no dia 17 de fevereiro, mas ela chega em um período favorável em que o Ocidente volta os olhares para a China. Prova disso é o termo ‘Chinamaxxing’, que tem sido usado para descrever a fascinação de jovens, especialmente dos Estados Unidos, por elementos da cultura chinesa. Nesse cenário, a peça da Adidas naturalmente se transforma em objeto de desejo, mas essa popularização também trouxe um debate relevante.

Continua após a publicidade

A polêmica envolve o desconforto que algumas pessoas de origem chinesa podem sentir ao perceber que a jaqueta é usada como mais uma tendência descartável, sendo esvaziada de sua história. A discussão que se levanta é que, ao vestir um código valioso para uma cultura, é importante saber de sua origem e relevância para a história do seu povo – e aprofundar o conhecimento para além de uma única peça.

“Eu te aconselho a repensar se você quer comprar essa jaqueta porque você aprecia o significado cultural dela e tudo o que ela significa para a história da China ou só porque você quer aderir a uma tendência”, refletiu um criador de conteúdo no TikTok que reconheceu que, no caso dele, se tivesse conseguido comprar a peça (porque ela está esgotada na maioria dos canais de venda), não teria usado, uma vez que, na verdade, tinha sido influenciado apenas pelo hype.

“Embora eu acredite que o resultado [dessa febre] seja legal, por exemplo, eu estou usando essa roupa [com nó chinês] sem sentir que posso ser alvo de comentários maldosos, seria legal se as pessoas fossem mais abertas e conscientes de certos significados sócio-culturais”, opinou outra criadora.

Continua após a publicidade

“Eu acho muito legal ver a cultura chinesa sendo desejada, apreciada e realmente servindo como inspiração, porque eu me lembro dela sendo desprezada por muito tempo”, compartilhou a influenciadora brasileira com ascendência chinesa Priscila Jin. Ao mesmo tempo, com tudo andando muito rápido na internet, com as tendências mudando em segundos, eu também penso se as pessoas realmente sabem o que estão usando. […] E outro ponto é dar os devidos créditos, porque muitas vezes as pessoas saem como detentoras daquela ideia, sendo que é uma cultura milenar.”

A popularização da jaqueta Tang, portanto, revela um aspecto importante de se olhar nas tendências de moda, tanto para quem consome quanto para quem cria.

@priscilajin

A minha cultura não é a sua tendência nem só uma tendência. #china #cultura #curiosidades #fashion #qipao

♬ som original – Pri Jin

Continua após a publicidade

+Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.

Publicidade