Aprendi que existem jeitos de falar de suicídio sem causar mais dor

Tão importante quanto falar sobre o tema é entender como falar sobre ele.

Por Andréa Martinelli 4 jun 2026, 08h00
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uando a gente pensa em falar sobre prevenção ao suicídio, é comum imaginar que psicólogos, psiquiatras, escolas ou hospitais precisam fazer parte da conversa, né? Afinal, essa é uma questão de saúde pública e que, de forma geral, afeta as pessoas em a nível global, de maneiras muito diferentes: a vida e a morte não tem o mesmo significado para todo mundo.

Mas uma das coisas mais importantes que aprendi em uma oficina sobre Comunicação Responsável para a Prevenção do Suicídio, promovida pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), em Brasília, entre os dias 1 e 2 de junho, foi que jornalistas, criadores de conteúdo e pessoas comuns também têm um papel fundamental nesse debate.

Isso, princiapalmente, porque a forma como falamos sobre suicídio – em uma notícia, reportagem ou até conteúdo nas redes sociais, e como esquecer de séries e filmes, né? – pode influenciar a maneira como outras pessoas entendem o tema, buscam ajuda ou lidam com o próprio sofrimento.

Oiê, tá tudo bem?

E ei, antes de continuar a ler esse texto, leitor e leitora de CAPRICHO, a nossa reportagem gostaria de te contar que esse é um assunto delicado e difícil de ser abordado e que está tudo bem se você não quiser continuar a leitura, ok? Não sabemos se você brigou com alguém ontem, se está passando por um momento de ansiedade ou pressão antes de uma prova, por exemplo. É real e está tudo bem.

Talvez você não saiba, mas o problema é gigante. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Entre jovens de 15 a 29 anos – ou seja, a nossa galera – ele está entre as principais causas de morte. Já entre adolescentes de 15 a 19 anos, o suicídio é a terceira principal causa de morte.

No contexto do Brasil e América Latina, os dados também mostram um cenário difícil de encarar. A taxa de suicídio entre crianças, adolescentes e jovens cresceu entre 2011 e 2022. No mesmo período, os registros de autolesão também aumentaram significativamente.

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Estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), realizado com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Brasil (SIM/SUS) entre os anos 2000 e 2022, mostram que na faixa etária entre 10 e 19 anos, o aumento dos suicídios no período aumentou em 53 vezes. Ou seja: o crescimento de suicídios entre os jovens é maior do que nas outras faixas etárias, com uma tendência muito mais intensa entre os mais novos.

Ou seja, a galera mais nova – provavelmente seus amigos, colegas e conhecidos – sofrem mais e passam a não enxergar a continuar a viver em um mundo que está em crise seja dentro ou fora das telas.

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O silêncio não protege ninguém

Ainda hoje, é verdade: o suicídio é tratado como um tabu, um assunto escondido nas famílias, evitado em escolas e muitas vezes ignorado pela imprensa. “A ideia era que não falar sobre o tema impediria que ele acontecesse. Mas isso nunca foi verdade”, afirmou Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere, facilitadora da imersão em Brasília.

“O problema não é falar sobre suicídio. O problema é falar de forma inadequada. E fingir que ele não existe não ajuda ninguém”, complementou a especialista.

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Durante anos, especialistas em saúde mental, pesquisadores e organizações internacionais observaram que determinadas formas de cobertura midiática podem aumentar o risco de comportamentos suicidas, especialmente entre adolescentes e jovens. Ao mesmo tempo, reportagens responsáveis, que falam sobre acolhimento, recuperação e acesso a cuidados, podem ter o efeito oposto: estimular a busca por ajuda e fortalecer fatores de proteção.

A primeira lição é: o suicídio não deve ser tratado como espetáculo. Isso significa evitar detalhes sobre métodos utilizados, não divulgar cartas, vídeos ou conteúdos deixados pela pessoa, não transformar a morte em narrativa romântica e não apresentar uma única razão para explicar algo que é extremamente complexo.

O suicídio não acontece por causa de uma prova difícil, de um término de namoro ou de uma briga específica. Especialistas o definem como um fenômeno multifatorial, influenciado por fatores psicológicos, sociais, econômicos, familiares, culturais e de saúde. Reduzir essa complexidade a uma única explicação pode gerar desinformação e reforçar estigmas.

Existe uma diferença importante entre despertar consciência e provocar sensacionalismo. Quando uma notícia transforma uma morte em espetáculo, o foco deixa de ser a prevenção. Quando a reportagem explica sinais de alerta, mostra caminhos de acolhimento e apresenta recursos de apoio, ela contribui para a proteção da comunidade.

Existem dois contextos importantes: o efeito Werther e o efeito Papageno. O efeito Werther descreve o aumento do risco de comportamentos de imitação após coberturas sensacionalistas ou detalhadas sobre suicídio, especialmente quando envolvem pessoas famosas ou recebem grande repercussão.

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Já o efeito Papageno aponta o caminho oposto: acontece quando reportagens e conteúdos destacam histórias de superação, busca por ajuda e estratégias para lidar com momentos de crise, mostrando que existem alternativas ao sofrimento.

Mas porque a galera jovem é tão afetada?

Você aí do outro lado bem sabe que a adolescência é um período de intensas mudanças emocionais, sociais e físicas. Segundo a OPAS, uma em cada seis pessoas no mundo tem entre 10 e 19 anos, e os transtornos mentais representam uma parcela importante dos problemas de saúde nessa faixa etária.

A OMS também aponta que metade dos transtornos mentais começa antes dos 14 anos, embora muitos casos não sejam identificados nem tratados adequadamente. No Brasil, diferentes levantamentos indicam um crescimento das queixas relacionadas à ansiedade, depressão, sofrimento emocional e autolesão entre adolescentes e jovens nos últimos anos. Ao mesmo tempo, é uma geração que cresceu conectada e não reconhece a vida longe das telas e dos algoritmos.

E é preciso lembrar, viu? A conversa é séria: as redes sociais criaram novas formas de apoio, comunidade e troca de experiências e são ótimas para isso. Mas também ampliaram a velocidade com que informações, imagens e discursos circulam. Por isso, a comunicação responsável se tornou uma questão ainda mais urgente.

Não se trata de esconder o sofrimento. Trata-se de falar sobre ele de forma cuidadosa, sem glamourizar a dor e sem transformar situações de crise em conteúdo viral.

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Relação entre excesso digital e alta taxa de suicídio de jovens preocupa

Mas nem todo jovem enfrenta os mesmos riscos

Uma das reflexões mais importantes trazidas pelos especialistas da oficina foi que não existe uma única “juventude brasileira”. Quando falamos sobre saúde mental e prevenção do suicídio, precisamos lembrar que adolescentes e jovens vivem realidades muito diferentes dependendo de fatores como raça, território, renda, acesso à educação e presença de serviços de saúde.

Os dados mostram que algumas populações enfrentam vulnerabilidades específicas e, por isso, precisam ser consideradas de forma prioritária nas estratégias de prevenção.

Entre os povos indígenas, por exemplo, as taxas de suicídio são historicamente mais altas do que as observadas na população geral brasileira. Estudos e dados do Ministério da Saúde mostram que indígenas registram algumas das maiores taxas de mortalidade por suicídio do país, especialmente entre jovens.

Esse cenário pode estar relacionado a fatores como a perda de territórios, conflitos fundiários, violência, discriminação, ruptura de vínculos comunitários e dificuldades de acesso a serviços de saúde mental culturalmente adequados.

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A questão também afeta populações ribeirinhas e comunidades que vivem em áreas remotas da Amazônia. Nesses territórios, a distância física dos serviços especializados, a escassez de profissionais de saúde mental e o isolamento geográfico podem dificultar o acesso ao cuidado e ao acompanhamento contínuo.

Entre a população negra, pesquisadores e gestores de saúde alertam para o impacto do racismo estrutural na saúde mental. Sentimentos de não pertencimento, discriminação, violência, desigualdades econômicas e barreiras de acesso aos serviços de saúde aparecem com frequência nas pesquisas como fatores que podem aumentar vulnerabilidades psicológicas.

Por isso, quando especialistas falam sobre prevenção do suicídio, eles não estão falando apenas de atendimento psicológico. Também estão falando sobre direitos, pertencimento, proteção social, acesso à educação, fortalecimento das comunidades e combate às diferentes formas de violência e discriminação.

Afinal, cuidar da saúde mental também significa garantir que todas as pessoas tenham condições dignas de viver, sonhar e construir um futuro possível.

Talvez a principal lição da oficina tenha sido essa: quando o assunto é suicídio, muita gente ainda acredita que não há nada a fazer, mas é exatamente o contrário. A prevenção passa pelo fortalecimento de vínculos, pelo acesso à saúde mental, pela redução do estigma, pela identificação precoce de sinais de sofrimento e pela construção de ambientes que não gerem dor.

É possível encontrar ajuda, sim

É possível conversar com pessoas de confiança, buscar atendimento em serviços de saúde do SUS, procurar um CAPS ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento 24 horas por dia gratuito e sigiloso – além de sem julgamentos, críticas ou comparações – pelo telefone 188.

O CVV também pode ser acessado por meio de um chat no site oficial da organização, só que com horário de funcionamento restrito:

  • Aos domingos, de 17h à 1h;
  • De segunda a quinta-feira, de 9h à 1h;
  • Na sexta-feira, de 15h às 23h;
  • E nos sábados, de 16h à 1h.

Outros canais que oferecem atenção e auxílio são o Mapa da Saúde Mental, que traz uma lista de locais de atendimento voluntário online e presencial em todo país, e o Pode Falar, lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de ajuda em saúde mental para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. Funciona também de forma anônima e gratuita.

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