Mulheres e meninas ‘votam mal’? Os dados oficiais respondem à pergunta
Números do TSE, do IBGE e de centros de pesquisa desmontam a ideia de que o voto feminino é menos participativo ou informado que o masculino. Entenda aqui.
ideia de que “o voto feminino é de menor valor” ganhou força nas últimas semanas, puxada por declarações de figuras da direita brasileira em meio à corrida eleitoral de 2026, houve até quem afirmasse, sem apresentar dados, que mulheres “votam estatisticamente muito mal”.
A frase foi do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, em seu canal do YouTube, ao falar sobre a crise entre a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, seu enteado, e pré-candidato à Presidência em 2026, que pautou o noticiário político nas últimas semanas. “Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”, disse.
“Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística”, continuou Figueiredo.
A repercussão foi tão grande que o tema foi parar até na Procuradoria-Geral da República (PGR) e mobilizou a bancada feminina no Congresso Nacional. Mas, no meio do barulho, ficou uma pergunta sem resposta: será que existe algum número que sustente essa ideia de que o voto feminino é de menor valor e que as mulheres votam mal?
Na mesma semana em que a declaração foi dada, uma sondagem realizada pela Meio/Ideia, apontou que seis em cada dez brasileiros (60,6%) discordam da afirmação de que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras”. O levantamento ainda aponta que 44% discordam totalmente e outros 16,6%, parcialmente, da declaração.
CAPRICHO pesquisou em bases oficiais de dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e mais outros estudos e entendeu que, se o critério utilizado para esse argumento for participação, informação ou escolaridade, as estatísticas oficiais apontam justamente o contrário do que aponta a fala do blogueiro.
Abaixo, estão os números.
As mulheres são a maioria e decidem as eleições
Bora começar pelo básico: não dá pra falar de eleição no Brasil sem falar das mulheres. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), elas são a maioria do eleitorado brasileiro — 81.806.914 eleitoras, ou 52,47% do total, contra 74.076.997 eleitores homens (47,51%) nas Eleições Municipais de 2024. São cerca de 7,7 milhões de mulheres a mais do que homens aptos a votar.
E não é um fenômeno de um estado só: há mais mulheres do que homens aptos a votar em todos os estados brasileiros, e em quase 62% dos municípios o eleitorado feminino é maioria. Ou seja, qualquer generalização negativa sobre o voto das mulheres acerta em cheio mais da metade de quem decide as eleições no país.
Elas aparecem mais na hora de votar, sabia?
Um jeito bem concreto de medir se alguém “leva o voto a sério” é simplesmente comparecer. E aqui os números não deixam dúvida. Um estudo publicado na revista científica Caderno CRH (na base SciELO), que mapeou quem foi votar na eleição presidencial de 2022, mostra que a taxa de comparecimento das mulheres (80%) foi 2 pontos percentuais maior que a dos homens (78%) no primeiro turno.
E não foi só naquele ano: dados históricos mostram que, nas três últimas eleições, a taxa de homens que faltou às urnas foi, em média, 2% maior que a das mulheres. Traduzindo: elas votam mais e ainda justificam mais a ausência quando não conseguem comparecer.
Na média, as mulheres estudaram mais
A escolaridade costuma ser usada como um termômetro de acesso à informação — e tem relação direta com ir ou não votar. De acordo com o TSE, entre o eleitorado analfabeto a abstenção em 2018 chegou a 50%, enquanto entre quem terminou o ensino superior só 11% faltaram. No primeiro turno de 2022, 55% de quem se absteve tinha estudado apenas até o ensino fundamental.
E onde as mulheres entram nessa conta? Do lado da maior escolaridade: segundo o IBGE, elas são maioria entre quem concluiu o ensino superior no Brasil. Isso derruba de vez a associação entre voto feminino e falta de informação.
O argumento dos EUA se vira contra quem usa
Parte do discurso recente foi buscar dados dos Estados Unidos pra tentar provar a tese, apontando que o eleitorado feminino de lá tende a votar no Partido Democrata. O dado existe, mas o problema é a interpretação.
Nos EUA, existe uma diferença de gênero no voto registrada desde pelo menos a eleição de 1980, com as mulheres preferindo candidatos democratas e os homens, os republicanos. Segundo o CAWP, centro de estudos da Universidade Rutgers, essa diferença aparece em toda eleição presidencial desde então, variando de 4 a 12 pontos. Em 2024, ficou em cerca de 10 pontos, com 45% das mulheres e 55% dos homens votando em Trump.
Só que, de modo geral, preferir um partido não é “votar mal” ou “votar bem”. O próprio CAWP explica que quem se beneficia dessa diferença depende do partido do candidato, não do gênero dele. Chamar de “voto ruim” a escolha de um grupo só porque ela contraria a sua é transformar divergência política em suposta incapacidade.
Então, de onde vem essa ideia?
O argumento é reciclado. Durante décadas, quem era contra o voto feminino dizia que as mulheres seriam “emocionais demais” pra política e que faltaria a elas racionalidade pra decidir o rumo do país. A versão de agora só troca a roupagem: não se diz mais que mulher não pode votar, e sim que vota “mal”.
No Brasil, o direito ao voto feminino data de 24 de fevereiro de 1932, quando o Código Eleitoral do governo Getúlio Vargas passou a reconhecê-lo, após anos de campanha de grupos como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada pela bióloga Bertha Lutz.
Na primeira versão da norma, o direito valia para mulheres casadas com autorização do marido e para viúvas e solteiras com renda própria; as restrições foram retiradas em 1934.
A primeira eleição com participação feminina em âmbito nacional ocorreu em 1933, para a Assembleia Nacional Constituinte. Ou seja, o direito tem menos de um século no país.
A diferença é que hoje esse discurso tem que encarar dados públicos e auditáveis. E eles mostram um eleitorado feminino que é maioria, comparece mais, estudou mais na média e participa ativamente da democracia.





