Mulheres e meninas ‘votam mal’? Os dados oficiais respondem à pergunta

Números do TSE, do IBGE e de centros de pesquisa desmontam a ideia de que o voto feminino é menos participativo ou informado que o masculino. Entenda aqui.

Por Andréa Martinelli 14 jul 2026, 08h00
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ideia de que “o voto feminino é de menor valor” ganhou força nas últimas semanas, puxada por declarações de figuras da direita brasileira em meio à corrida eleitoral de 2026, houve até quem afirmasse, sem apresentar dados, que mulheres “votam estatisticamente muito mal”.

A frase foi do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, em seu canal do YouTube, ao falar sobre a crise entre a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, seu enteado, e pré-candidato à Presidência em 2026, que pautou o noticiário político nas últimas semanas. “Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”, disse.

“Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística”, continuou Figueiredo.

A repercussão foi tão grande que o tema foi parar até na Procuradoria-Geral da República (PGR) e mobilizou a bancada feminina no Congresso Nacional. Mas, no meio do barulho, ficou uma pergunta sem resposta: será que existe algum número que sustente essa ideia de que o voto feminino é de menor valor e que as mulheres votam mal?

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Na mesma semana em que a declaração foi dada, uma sondagem realizada pela Meio/Ideia, apontou que seis em cada dez brasileiros (60,6%) discordam da afirmação de que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras”. O levantamento ainda aponta que 44% discordam totalmente e outros 16,6%, parcialmente, da declaração.

CAPRICHO pesquisou em bases oficiais de dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e mais outros estudos e entendeu que, se o critério utilizado para esse argumento for participação, informação ou escolaridade, as estatísticas oficiais apontam justamente o contrário do que aponta a fala do blogueiro.

Abaixo, estão os números.

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As mulheres são a maioria e decidem as eleições

eleições 2024
Há mais mulheres do que homens aptos a votar em todos os estados brasileiros, e em quase 62% dos municípios o eleitorado feminino é maioria. Pedro Vilela/Getty Images

Bora começar pelo básico: não dá pra falar de eleição no Brasil sem falar das mulheres. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), elas são a maioria do eleitorado brasileiro — 81.806.914 eleitoras, ou 52,47% do total, contra 74.076.997 eleitores homens (47,51%) nas Eleições Municipais de 2024. São cerca de 7,7 milhões de mulheres a mais do que homens aptos a votar.

E não é um fenômeno de um estado só: há mais mulheres do que homens aptos a votar em todos os estados brasileiros, e em quase 62% dos municípios o eleitorado feminino é maioria. Ou seja, qualquer generalização negativa sobre o voto das mulheres acerta em cheio mais da metade de quem decide as eleições no país.

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Elas aparecem mais na hora de votar, sabia?

Fila para votação nas eleições 2022 em Brasília
Fila para votação nas eleições 2022 em Brasília Mateus Bonomi/Anadolu Agency/Getty Images

Um jeito bem concreto de medir se alguém “leva o voto a sério” é simplesmente comparecer. E aqui os números não deixam dúvida. Um estudo publicado na revista científica Caderno CRH (na base SciELO), que mapeou quem foi votar na eleição presidencial de 2022, mostra que a taxa de comparecimento das mulheres (80%) foi 2 pontos percentuais maior que a dos homens (78%) no primeiro turno.

E não foi só naquele ano: dados históricos mostram que, nas três últimas eleições, a taxa de homens que faltou às urnas foi, em média, 2% maior que a das mulheres. Traduzindo: elas votam mais e ainda justificam mais a ausência quando não conseguem comparecer.

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Na média, as mulheres estudaram mais

100 dias eleições
Segundo o IBGE, elas são maioria entre quem concluiu o ensino superior no Brasil. Buda Mendes/LatinContent/Getty Images

A escolaridade costuma ser usada como um termômetro de acesso à informação — e tem relação direta com ir ou não votar. De acordo com o TSE, entre o eleitorado analfabeto a abstenção em 2018 chegou a 50%, enquanto entre quem terminou o ensino superior só 11% faltaram. No primeiro turno de 2022, 55% de quem se absteve tinha estudado apenas até o ensino fundamental.

E onde as mulheres entram nessa conta? Do lado da maior escolaridade: segundo o IBGE, elas são maioria entre quem concluiu o ensino superior no Brasil. Isso derruba de vez a associação entre voto feminino e falta de informação.

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O argumento dos EUA se vira contra quem usa

Parte do discurso recente foi buscar dados dos Estados Unidos pra tentar provar a tese, apontando que o eleitorado feminino de lá tende a votar no Partido Democrata. O dado existe, mas o problema é a interpretação.

Nos EUA, existe uma diferença de gênero no voto registrada desde pelo menos a eleição de 1980, com as mulheres preferindo candidatos democratas e os homens, os republicanos. Segundo o CAWP, centro de estudos da Universidade Rutgers, essa diferença aparece em toda eleição presidencial desde então, variando de 4 a 12 pontos. Em 2024, ficou em cerca de 10 pontos, com 45% das mulheres e 55% dos homens votando em Trump.

Só que, de modo geral, preferir um partido não é “votar mal” ou “votar bem”. O próprio CAWP explica que quem se beneficia dessa diferença depende do partido do candidato, não do gênero dele. Chamar de “voto ruim” a escolha de um grupo só porque ela contraria a sua é transformar divergência política em suposta incapacidade.

Então, de onde vem essa ideia?

O argumento é reciclado. Durante décadas, quem era contra o voto feminino dizia que as mulheres seriam “emocionais demais” pra política e que faltaria a elas racionalidade pra decidir o rumo do país. A versão de agora só troca a roupagem: não se diz mais que mulher não pode votar, e sim que vota “mal”.

O voto feminino no Brasil

No Brasil, o direito ao voto feminino data de 24 de fevereiro de 1932, quando o Código Eleitoral do governo Getúlio Vargas passou a reconhecê-lo, após anos de campanha de grupos como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada pela bióloga Bertha Lutz.

Na primeira versão da norma, o direito valia para mulheres casadas com autorização do marido e para viúvas e solteiras com renda própria; as restrições foram retiradas em 1934.

A primeira eleição com participação feminina em âmbito nacional ocorreu em 1933, para a Assembleia Nacional Constituinte. Ou seja, o direito tem menos de um século no país.

A diferença é que hoje esse discurso tem que encarar dados públicos e auditáveis. E eles mostram um eleitorado feminino que é maioria, comparece mais, estudou mais na média e participa ativamente da democracia.

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