O que é justiça reprodutiva e a sua importância no debate sobre aborto

Nem todas meninas e mulheres têm a mesma autonomia reprodutiva e o mesmo direito de cuidar dos filhos.

Por Juliana Morales 17 mar 2024, 10h06 | Atualizado em 8 jun 2026, 16h05
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‘justiça reprodutiva’? Diante da desigualdade social, racial e de gênero presente na nossa sociedade, esse termo se torna fundamental na discussão sobre os direitos sexuais e reprodutivos de meninas e mulheres no Brasil. E é muito importante que a nossa galera participe ativamente dessa conversa, viu?

Segundo dados da PNA (Pesquisa Nacional Sobre Aborto), realizada em 2021, uma a cada duas mulheres fez um aborto antes dos 19 anos. Dessas, 6% antes dos 14 anos. A maioria são mulheres negras que se encontram em situação de vulnerabilidade. Um outro estudo recente, publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva da Abrasco, apontou que mulheres negras apresentam uma probabilidade 46% maior de fazer um aborto, em todas as idades, com relação às mulheres brancas. 

Esses dados evidenciam que a raça, classe e gênero impactam no acesso à saúde e no exercício dos diretos no campo da sexualidade e reprodução. Ou seja, diferentes grupos de mulheres têm oportunidades desiguais para tomar decisões sobre seus corpos e ter acesso a direitos de saúde também.

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Aqui temos outro exemplo, infelizmente. A pesquisa Nascer no Brasil, realizado pelo Ministério da Saúde, apontou que a morte de mães negras é duas vezes maior que de brancas. Elas têm menos acesso à assistência pré-natal – que é um importante instrumento para prevenção de morte e outras complicações decorrentes da gestação, tanto para mães quanto para os bebês. O índice de gestantes que começaram os atendimentos no segundo trimestre da gravidez – considerado tardio – ficou em 13,4 % para pretas e pardas e 9,1% para mulheres brancas.

É diante dessa realidade que surge a luta por justiça reprodutiva, principalmente por mulheres pretas e pardas. Segundo a feminista e ativista afro-americana Loretta Ross justiça reprodutiva significa “o completo bem-estar físico, mental, espiritual, político, social e econômico de mulheres e meninas, com base na plena realização e proteção dos direitos humanos das mulheres”. Ou seja, os direitos das meninas e mulheres no campo sexual e reprodutivo não são apenas individuais, mas estão diretamente ligados à justiça social.

Como explica o Guia de Defesa Popular da Justiça Reprodutiva, produzido pelo Coletivo Margarida Alves, o termo ‘justiça reprodutiva’ surgiu a partir de um encontro de mulheres negras em Chicago, nos Estados Unidos.

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Nomeadas ‘Mulheres de Descendência Africana pela Justiça Reprodutiva (Women of African Descent for Reproductive Justice), elas perceberam que “o movimento de direitos das mulheres, liderado e representado por

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mulheres brancas de classe média, não defenderia as necessidades das mulheres racializadas, e outras mulheres marginalizadas e pessoas trans”.

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Em 1994, foi definido, internacionalmente, o conceito de direitos sexuais e direitos reprodutivos na Conferência sobre População e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas, realizada no Cairo. A partir de então, mulheres e homens foram reconhecidos como sujeitos do direito básico de “decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer, e o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva. Inclui também o direito de toda pessoa de tomar decisões sobre a reprodução, livre de discriminação, coerção ou violência.”

Justiça reprodutiva vai além do aborto

A luta por justiça reprodutiva não trata-se apenas do direito ao aborto e a escolha de ter ou não filhos. Ativistas como Ross defendem que as mulheres desfavorecidas tenham também o direito de cuidar dos filhos, assim como controlar as opções de parto.

Ao decidir prosseguir com a gravidez, quais políticas garantem atendimento e apoio para que, independente da classe social e raça, a mulher tenha uma gestação saudável? E, depois, o que é feito para que ela, a criança e toda a família tenham

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acesso ao saneamento básico, à saúde, à educação e às condições que permitam o desenvolvimento humano?

A pesquisadora Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia, falou sobre o tema durante um encontro promovido pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), enfatizando que justiça reprodutiva não é somente sobre aborto, não é um intercambio ou troca entre justiça reprodutiva e direito reprodutivo.

É muito mais do que isso. Segundo ela, em dos aspectos a ser considerado em justiça reprodutiva é o genocídio de jovens negros – e as mães enlutadas perdem o seu direito de maternidade. A cada 100 mil assassinatos, 86,34% são de jovens negros, de acordo com dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil.

“A justiça reprodutiva dá luz a isso, um tema que não é novidade no movimento de mulheres negras, um debate já pontuado sobre a autonomia reprodutiva, o direito de ter filhos e vê-los crescer”, afirma.

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