Violência digital afeta mulheres negras independente da idade ou cargo

Estudo do Instituto Minas Programam revela que ataques online as perseguem em qualquer espaço de poder, mas que sair das redes sociais não é uma opção.

Por Andréa Martinelli 2 jun 2026, 08h00
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ocê já reparou que algumas meninas e mulheres “somem” das redes ou trancam os perfis depois de virarem alvo de ataques? Por trás desse movimento existe um fenômeno que ganhou nome e você, leitor e leitora de CAPRICHO, cronicamente online, precisa saber qual é: a violência de gênero facilitada pelas tecnologias, ou VGFT. E uma pesquisa do Instituto Minas Programam acaba de mostrar o tamanho do problema no Brasil e como isso pode impactar a vida de quem é jovem e sonha em ocupar espaços em meios entendidos como majoritariamente masculinos como ciência, tecnologia ou até a política.

Realizado entre abril de 2024 e março de 2025, o estudo “Cavando nossos espaços” entrevistou mulheres negras brasileiras — escritoras, políticas, profissionais de tecnologia, estudantes, líderes comunitárias, artistas e jornalistas — que sofreram algum tipo de ataque online por simplesmente existirem e se posicionarem em ambientes públicos.

E não, não precisa ser famosa ou ter muitos seguidores

Esse talvez seja o achado mais impactante do estudo: o ataque não escolhe currículo. “Não é necessário ser uma figura pública para receber ataques, basta ser uma mulher negra que se posicione”, afirma, Bárbara Paes, diretora do Minas Programam e uma das autoras do estudo à CAPRICHO. “Pelas entrevistas, percebemos diversos casos de VGFT contra mulheres negras com sua exclusão de espaços como bibliotecas, universidades, política e de profissões STEM, e uma negação do seu reconhecimento como intelectuais, criadoras de conhecimento e educadoras.”

A pesquisa mostra que a violência atinge mulheres negras independentemente de suas posições, idades e níveis hierárquicos, funcionando como uma extensão do racismo e do machismo que já existem fora das telas. Para Ester Borges, também autora do estudo, “qualquer mulher negra está sujeita a esse tipo de ataque, já que a VGFT busca com frequência reproduzir e amplificar narrativas de que essas mulheres são inadequadas ao debate público e não são aptas a determinados cargos”.

As pesquisadoras explicam à CAPRICHO que esse tipo de violência opera muito por meio da deslegitimação intelectual e moral das mulheres negras.

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“Há um esforço contínuo para questionar sua competência, sua autoridade técnica, sua legitimidade política e até sua humanidade. É uma violência que tenta recolocar essas mulheres em lugares historicamente subordinados”, afirmam. Para nomear esse mecanismo, a pesquisa dialoga com o termo misogynoir, criado pela acadêmica Moya Bailey para descrever a mistura específica de racismo e misoginia que recai sobre mulheres negras no ambiente digital.

Acontece na vida real, com pessoas próximas a você

Os casos reunidos no estudo mostram como a violência atravessa gerações e profissões diferentes. Um exemplo é o caso da Beatriz* que, aos 50 anos, sofreu uma série de ataques enquanto atuava como professora substituta em uma universidade pública. Estudantes usavam as redes para difamá-la e estimular outros a fazerem o mesmo.

“Diziam que eu era muito rígida e que, em vez de dar tarefas difíceis para eles fazerem, eu precisava de um homem que tomasse conta de mim. E as pessoas curtiam esses comentários”, relata. Mesmo após denunciar, ela sentiu que o reconhecimento institucional do racismo e da misoginia foi superficial, relatou às pesquisadoras.

Michelle*, 34, começou a ser atacada em 2019, quando liderou a abertura de uma biblioteca comunitária batizada de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018. Os comentários a chamavam de “mulherzinha” e questionavam sua autoridade para tocar o projeto: “O que ela acha que está fazendo?”, indagavam.

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Já Maria*, 30, mulher negra e nordestina, planejava disputar as eleições municipais em 2018 quando passou a receber ligações anônimas descrevendo exatamente onde ela estava. A sensação de estar sendo vigiada se tornou insuportável. “Percebi que as redes sociais tinham um papel muito importante, mas também me senti desmotivada para ser influenciadora. Abandonei totalmente o papel de influenciadora política depois disso”, conta Maria, que desistiu da candidatura.

O efeito (in)visível: meninas que desistem antes de tentar

A violência se manifesta muito além das redes sociais, acredite. “Os impactos são profundos porque a violência funciona não apenas como punição, mas como mecanismo disciplinador. Meninas negras e jovens lideranças observam o que acontece com mulheres que se tornam vocais em espaços de tecnologia, ciência, política ou comunicação e passam a entender que existir nesses ambientes pode significar exposição permanente à violência”, explicam.

O resultado aparece cedo. “Muitas jovens começam a moderar sua participação pública antes mesmo de ocupar determinados espaços. Outras abandonam cursos, reduzem presença online, evitam debates públicos ou deixam de se candidatar a oportunidades de liderança”, afirmam as autoras. E há um agravante: em áreas de STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), onde já existe uma exclusão histórica de mulheres negras, “a violência digital acaba funcionando como uma barreira adicional”.

Sair das redes? A escolha não é tão simples

As pesquisadoras se recusam a falar em “autoexílio”. “As escolhas feitas pelas participantes não são simples nem binárias. Não estamos falando apenas de ‘sair das redes’ ou ‘continuar exposta’. O que encontramos são processos complexos de reorganização estratégica da presença digital”, explicam. “Mais do que apenas remover conteúdo violento, a discussão envolve pensar que tipo de internet está sendo construída e quem participa dessas decisões.”

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Na prática, isso significa pensar muito mais nos movimentos online: quais plataformas usar, que tipo de conteúdo publicar, quais informações pessoais compartilhar e quais interações evitar. Essa negociação permanente entre visibilidade, segurança, saúde mental e ação política, segundo elas, “tem um custo desigual, porque mulheres negras precisam desenvolver estratégias contínuas de autoproteção para permanecer em ambientes digitais que frequentemente já operam de maneira hostil a elas”.

Apesar de tudo, a análise aponta para uma solucão. “As participantes da pesquisa se recusaram a ficar silenciadas. São histórias de reconstrução coletiva, com mulheres negras definindo novas formas de continuar atuando”, dizem.

O estudo mostra que o caminho de volta muitas vezes passa pelo apoio de outras mulheres. Mariane, 27, maquiadora e líder comunitária, apagou suas redes e se afastou completamente do digital após sofrer uma enxurrada de ataques misóginos, racistas e gordofóbicos. Foi a amizade com uma vizinha e o ingresso em um coletivo feminista que iniciaram seu processo de recuperação.

Para a estudante universitária Letícia, 24, vítima de agressão física e de uma campanha de difamação, a esperança vem justamente dessa rede. “Por mais que esse espaço seja hostil, estou disposta a construir algo mais acolhedor para nós. Para que outras não passem pelo que eu passei”, afirma. “É um lugar onde eu fui vítima de violência, mas é um lugar onde eu vou ficar, porque é uma arena de disputa política e onde a gente precisa estar.”

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E sobre  2026? As pesquisadoras apontam para uma preocupação legítima com o aprofundamento dessas dinâmicas em ano eleitoral, mas reforçam que o debate urgente é sobre responsabilidade das plataformas e condições reais de permanência das mulheres negras na vida pública digital.

“Achamos que existe uma preocupação legítima com o aprofundamento de dinâmicas de violência online contra mulheres negras. Mas, mais do que prever um cenário específico, a pesquisa aponta para a urgência de discutir responsabilidade das plataformas, proteção específica às mulheres negras e condições reais de permanência na vida pública digital”, apontam.

E você aí do outro lado? Como age para construir uma internet melhor para você e para seus pares?

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Como se manter bem informado em 2026

 

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